No mês de agosto, nas ruas da cidade do São Salvador, experimentam-se as mais profundas relações com as matrizes africanas, que são visíveis no cotidiano desta cidade que foi chamada pela notável Ialorixá Aninha de “Roma Negra”.

São as tradições com os santos de agosto, santos da Igreja que se relacionam com os orixás dos muitos candomblés que trazem as suas memórias e os seus rituais públicos para se integrarem com as paisagens sociais e culturais da Bahia.

As celebrações do sagrado sempre são marcadas por rituais coletivos onde há comidas especiais que indicam também maneiras especiais para se comer; e assim cada festa, cerimônia, identifica-se pelos ingredientes e preparos culinários que comunicam a identidade de cada celebração.

Esses acervos de comidas, em contextos africanos e afrodescendentes, ampliam-se quando são relacionados ao entendimento do que é comer; e isto vai muito além do que a boca pode reconhecer em sabor, porque o ato de comer é uma construção social e histórica.

 

Foto Jorge Sabino

 

No caso o doboru, pipoca feita de milho alho, é para alimentar o corpo no sentido mais amplo, pois a pipoca toca o corpo externamente num verdadeiro banho, que revela uma outra e diferente maneira de comer.

As matrizes africanas e afrodescendentes dos candomblés valorizam muito o ato de comer, porque a comida estabelece uma comunicação entre o homem e o orixá; por isso se tem o hábito de “dar de comer” aos atabaques, às árvores sagradas, num entendimento de que a alimentação se estende além do homem e vai até os elementos da natureza.

O doboru, no olhar da matriz africana, é um preparo sagrado para comemorar um dos orixás mais populares da Bahia que é Omolu, Obaluiaiê para as tradições Ioruba/Nagô.

Assim, a comida, o doboru, vai para a rua no ritual chamado de Sabejé, um ritual público e tradicional que ocorre durante todo o mês de agosto para celebrar Omolu, orixá relacionado com os santos da Igreja, São Roque e com São Lázaro. E agosto também é o mês em que se comemora estes santos no calendário da igreja católica.

Todas as Nações de candomblé, Ketu, Angola, Congo e Jeje, fazem essas comemorações públicas para preservarem as tradições de matriz africana.

O Sabejé é um ritual que representa a visita de Omolu à cidade, é o momento que ele estabelece contato com as pessoas, e isto se dá pelo uso das pipocas, a comida ritual deste orixá.

Nas ruas, grupos saem na forma de cortejos para fazer o Sabejé, que é identificado pelo uso do tabuleiro na cabeça, onde está o assentamento do orixá Omolu, e o balaio de doboru.

São muitos os trios de adeptos do candomblé que realizam a celebração e fazem das ruas espaços de fé coletiva. No Sabejé, quando a pessoa recebe o doboru ela deve oferecer uma quantia em dinheiro. O doboru é comido, ou passado pelo corpo como um verdadeiro ritual de purificação, um ritual de contato sagrado com o orixá.

Quem faz o Sabejé deve usar roupas tradicionais dos terreiros: roupas brancas com renda, bordados (crivo, richelieu), em tecidos engomados, verdadeiras expressões do barroco baiano.

O Sabejé é um momento que representa a história, a tradição africana; é um patrimônio da Bahia que diáloga com a arquitetura colonial das ruas, com as praças, com a população eminentemente afrodescendente da cidade do São Salvador.

 

 

Raul Lody, 27 de julho de 2017.

 

(Originalmente publicado no Jornal A Tarde, Bahia)