Sem dúvida, as festas são marcadas por comidas e cardápios especiais que querem traduzir temas, devoções, ou mesmo valorizar determinados ingredientes que possam revelar o que ou para quem é a festa.

Lembrar homenageados, datas, temas, os mais diversos motivos são anualmente celebrados para manter unidade, pertença e identidade de pessoas, de famílias, de grupos, de regiões, de sociedades, e de civilizações.

No Brasil, muitas festas são organizadas em verdadeiros ciclos que interpretam características regionais ou matrizes étnicas, que fazem de cada celebração coletiva um momento de expressão lúdica, religiosa e social.

Assim, acontece com o Carnaval, com as Festas Juninas e com o Natal, que trazem muitas e diferentes formas de celebrar, de relembrar as tradições, de ativar os rituais que marcam os plantios, as colheitas; ou mesmo as estações do ano, como o inverno e a primavera.

Todos esses imaginários trazem e indicam estéticas, cores, materiais, ingredientes, comidas e bebidas especiais. Também, trazem as memórias ancestrais com mitos, deuses, santos, orixás, onde se revelam múltiplas maneiras de interpretar fé, religiosidade e, em especial, de viver a comensalidade à mesa.

Como acontece, por exemplo, com Natal, que é uma das mais diversas e criativas formas de expressar devoção com música, dança, autos-dramáticos, cardápios, para assim experimentar e vivenciar cada elemento que representa simbolicamente a festa.

Os calendários são extensos, e o ciclo Natalino é celebrado até o dia 6 de janeiro com as festas dos Santos Reis Magos, data marcada pelos costumes ibéricos como o dia de dar os presentes. São formas de relembrar os presentes oferecidos pelos três Reis Magos para o Menino Deus.

Para reviver este tema, muitas famílias fazem as rabanadas ou fatias de parida, bebem vinho tinto ou mesmo o vinho do Porto tinto, preparam bolos, entre outras maneiras pessoais de celebrar com comida e bebida o nascimento do Menino Deus.

E há uma receita especial para celebrar a data de Reis, que é um tipo de pão doce conhecido no Brasil como Rosca de Reis.

Esta comida é feita à base de trigo, ovos, leite, açúcar, raspas das cascas de frutas cítricas, e decorada com frutas secas e/ou cristalizadas, além de um glacê de açúcar que integra a estética desta comida.

A Rosca de Reis pode ser recheada, ou seja: recebia alguns complementos especiais, chamados de “surpresas”, que podia ser uma fava, que representaria tanto uma moeda ou o Menino Deus; pequenas joias feitas de ouro; pequenas imagens de Maria, José e do Menino Deus em diferentes materiais.  Até hoje, são colocadas, também como surpresas, tiras de papel com mensagens como se fossem presentes dos Reis Magos.

 

Foto de Jorge Sabino

 

Gallete des Roi para os franceses, Roscon de Reyes para os espanhóis, Bolo-rei para os portugueses; e Rosca de Reis para os brasileiros. Este pão em forma de rosca recebe ingredientes diferentes de acordo com o lugar como, por exemplo, massa folhada, e recheio de creme de amêndoas com rum na França; vinho do Porto tinto em Portugal; agua de flor de laranjeira na Espanha, e nos países de língua hispânica como Argentina usa-se também mel nas receitas.

E a sua decoração com frutas glaceadas e/ou cristalizadas remetem as joias que são incrustadas nas coroas do Reis, o que reforça, dessa maneira, que a Rosca de Reis assume um verdadeiro significado de “joia”, de um presente precioso.

Comer a Rosca de Reis e um ritual social que se dá com a partilha manual deste pão que oferecido em pedaços aos que participam desta mesa-homenagem aos santos Reis Magos.

Assim, todos os anos muitas pessoas se unem entorno dessa comida que representa um dos costumes mais antigos da península ibérica no Brasil.

 

Raul Lody

Recife, 20 de dezembro de 2017