Comer fora de casa indica contextos sociais e econômicos que orientam as muitas e diversas maneiras de levar o alimento para fora da casa. São opções e formatos de cardápios com receitas já consagradas pelos hábitos alimentares que estão presentes nas marmitas.

Comer fora de casa, usar marmitas, aponta para atividades profissionais que se realizam tanto nas áreas rurais quanto urbanas. Também, vê-se que a soberania alimentar e as tendências nutricionais, na maioria das vezes, orientam o que está em cada marmita.

As receitas são normalmente organizadas a partir dos sistemas alimentares, e assim usam ingredientes regionais que estão associados às condições socioeconômicas. Tudo acontece numa tentativa de levar o hábito alimentar da casa para fora dela, para o trabalho ou outro ambiente social. A ideia é manter a refeição diária em porções que se relacionam com ideal de saciedade, de sentir estar bem alimentado conforme o padrão daquela cultura.

A marmita normalmente é preparada pela própria pessoa ou membro da família, ou ainda um profissional que ofereça variado cardápio. São formas de se oferecer cardápios numa embalagem especial que visa manter a conservação dos alimentos. A marmita pode ser feita de diferentes materiais, mas tradicionalmente é usado o alumínio.

“Comer de marmita” traz receitas com ingredientes simbólicos já consagrados pelo brasileiro, como o arroz, o feijão, a farinha de mandioca; a carne de gado vacum, a carne de galinha; entre outros, como, por exemplo, sanduíches, frutas, além de outros alimentos práticos de serem transportados.

 

Foto de Jorge Sabino

 

De uma longa e antiga tradição chinesa, as marmitas chegam ao Japão, e trazem uma maneira ancestral de embalar as comidas a serem transportadas para o local de trabalho em porções individuais. Esta embalagem para portar a comida é chamada de “obentô”, que pode ser feita de madeira, especialmente de bambu.

O “obentô”* porta cardápios tradicionais como arroz, legumes, carne ou peixe, conforme os hábitos alimentares e os conceitos nutricionais das cozinhas do Japão. *Obentô significa “porção de comida para levar”, e tem origem na palavra chinesa “biàndang“, que significa “conveniente”.

Além do valor nutricional dos alimentos, as cores também dão sentido aos cardápios dos “obentô”, e assim há uma estética funcional que determina a organização dos cardápios. Isto porque as cores marcam a variedade dos ingredientes, e revelam as opções que fazem parte daquele cardápio.

No caso brasileiro, há uma forte tendência a bicromia do branco e preto, arroz e feijão. No entanto, há um destaque hierárquico na marmita para a carne. Seja ela qual for e como for: assada, cozida, frita; moída, picada; ela representa o símbolo do “bem comer”, ou do poder comer carne, que é um arremate considerado vitorioso no ato da alimentação. Um substituto para as carnes é o ovo, normalmente o ovo frito, que coroa as camadas de feijão e de arroz, e também tem o seu consumo triunfal no arremate da refeição.

As marmitas mais comuns são feitas de alumínio, e são requentadas de diferentes maneiras, e geralmente têm um talher que é escolhido para acompanha-la.

Atualmente as embalagens das marmitas passaram por diferentes conceitos de materiais e marcas, como, por exemplo, Tupperware. Fruta in natura, comida de uma determinada dieta; ou ainda, os alimentos ditos funcionais, a marmita traz uma rica e ampla relação de cardápios.

A embalagem que comporta um alimento, também comporta um conceito de refeição, uma opção ou uma necessidade do que é possível comer conforme a disponibilidade. E, a partir daí, nestes cenários sociais, já começam a aparecer as marmitas “gourmet”.

Raul Lody