(…). Assim como os católicos têm imagens para seus santos, nós temos algumas coisas para nos lembrar os nossos orixás. Mas não adoramos imagens feitas pelas mãos humanas, como eles fazem. Adoramos a natureza”.

(Martiniano Eliseu do Bonfim – Ajimudá)

 

 

Há um profundo sentimento ecológico nas religiões tradicionais de matriz africana, que entendem o mundo como um grande e único sistema funcional e simbólico. E o sagrado está nas matas, nos rios, nos mares, nas árvores, nos animais, há uma comunicação que se dá nas relações entre o homem e o seu meio ambiente.

A religião dos orixás valoriza-se a natureza, e, entende-se que os orixás são a natureza ritualizada no sagrado. Desta maneira, elementos como terra, água e ar, têm sentidos próprios, e fluem entre si, fazendo existir o mundo, os ancestrais, os deuses e os homens.

A compreensão e o respeito pela natureza estão em todos os momentos do cotidiano dos terreiros, que buscam organizar e reorganizar, de maneira minimalista a vida natural por meio de diferentes representações no verde das folhas e das árvores.

Há ainda um valor especial para as receitas e os processos culinários que se dão a partir de folhas, temperos, frutas, legumes, raízes, tubérculos, que fazem parte dos cardápios de comidas para os deuses e para os homens. Efó, caruru, feijão de azeite, axoxó, entre tantas outras receitas que mostram uma sistematização simbólica do que natureza pode oferecer representam os elementos da natureza nos sabores e na estética de cada prato. Porque cada comida traz um aspecto funcional, nutricional e simbólico da natureza,

Destaque para o verde, e seus múltiplos usos que acompanham os indivíduos cotidianamente nos espaços dos terreiros, nas receitas das comidas, nos rituais feitos com folhas, que se dedicam aos orixás.

O sagrado de matriz africana vive a mata, a natureza, nas suas muitas representações, sendo a árvore escolhida, pois além das diferentes características botânicas, representa o grande encontro com a ancestralidade e com os orixás.

E, cada árvore é um verdadeiro monumento verde do que se entende por sagrado, porque cada árvore é fundadora do próprio entendimento do que é sagrado. Preservar, valorizar e cultuar a natureza, está representada nas árvores sagradas aonde se realizam os rituais de alimentação.

São cardápios especiais, onde há o sacrifício de animais; o oferecimento de azeite de dendê, de comidas de milho, de farinha de mandioca, de feijões; e, assim, dá-se de comer para árvores, porque as árvores sagradas comem; como também os objetos rituais, os atabaques, o corpo dos iniciados. Vê-se aí um entendimento amplo do conceito de comer.

Por exemplo, a árvore da gameleira representa o orixá Iroko ou Roko, também conhecido por Loko, Adanloko, Atanloko, Léléloko, Lokozoum. Iroko é uma divindade que proporciona os fenômenos do tempo, e o seu culto é um dos mais antigos nas tradições religiosas dos orixás. Tão grande é a sua importância que há um texto sagrado que situa o seu alto significado como árvore, atin alomape – a árvore que não se pode rodear com a mão.

As gameleiras são vestidas, adornadas com ojás – grandes faixas de tecido branco de algodão com bordados. Tem-se um cuidado estético para mostrar a importância desta árvore que, além de sagrada, é um lugar de culto e de devoção religiosa. Já dizia o texto sagrado dos terreiros, que foram transmitidos pela palavra: “Antes dos homens acreditarem nos orixás já acreditavam nas árvores”.

Raul Lody