As frutas assumem muitos significados, tanto nos usos culinários quanto na formação de símbolos dentro dos imaginários culturais, e aí são construídas as mitologias e as maneiras para se comunicar com o sagrado. Frutas para intermediar as relações de poder. Frutas consumidas ritualmente nas celebrações. Frutas que integram os hábitos alimentares no cotidiano.

Inicialmente, trago a tão famosa maçã, fruta que é associada ao Jardim do Éden, como relata o Gênesis, e que é marcada pelo seu oferecimento das mãos de Eva ao seu companheiro Adão; e, assim, uma fruta determinou um limite entre a virtude e o pecado. A maçã estabelece uma fronteira com o paraíso, com a mortalidade e com a diáspora humana no mundo. Maçã, o fruto do pecado, para uma moral fundada na busca pela justificativa do lugar social do gênero e da sexualidade.

Os frutos vermelhos, usados milenarmente por muitas e antigas civilizações, podem traduzir diversos significados. A cor expressa, de maneira ancestral, uma relação com a fertilidade para as diferentes culturas do mundo; pois, por identificar o sangue, o vermelho mostra uma relação profunda com a fecundação.

Romã foto de Jorge Sabino

Foto de Jorge Sabino

Vermelho do sangue menstrual; vermelho da carne; vermelho das vísceras; vermelho dos condimentos. Vermelho da páprica, das pimentas, do urucum. Vermelho das pinturas corporais, dos panos para se vestir. Vermelho do pau-Brasil, da tintura feita com as suas cascas. Vermelho da representação do poder real e do poder divino. O vermelho cardinalício, como determinou a estética no período do Renascimento na Europa Ocidental.

Ainda, vermelho é o vinho tinto que chega da uva, outra fruta milenar que toca e promove o encontro entre o corpo e o prazer, e entre o corpo e os deuses Baco e Dionísio.

A uva que se relaciona com estes deuses, que são também deuses do erotismo, possibilita no vinho o início de um processo que invade o corpo e que acorda a sexualidade. Este mesmo vinho que representa o sangue de Cristo, que reforça o sentido vivo da cor, e a sua ampla e diversa circulação simbólica.

Entre as muitas frutas vermelhas que estão no consumo mundial, e que trazem referências míticas e morais das relações entre os homens e o sagrado, a romã é uma fruta que circula pelo mundo há milênios, e faz parte de diferentes sistemas de fé desde a antiga Pérsia, atual Irã.

A romã, Punica granatum, expande-se da Ásia Menor, Ocidental, para a Índia, e para o Mediterrâneo. Destaque para o Oriente Médio, onde a romã é consumida como uma fruta ritual tanto por judeus quanto cristãos.

A memória ancestral da romã mostra o seu sentido de fruta do desejo, uma fruta que nasceu do sangue do deus Dionísio; e que representa, ainda, Perséfone, a deusa da terra, dos plantios e, em especial, das frutas e dos cereais.

A romã, de maneira geral, é uma fruta solar e do sangue; e pela sua cor e seu formato ainda é uma referência da vulva feminina, o que reforça o seu sentido de sexualidade. A partir desta forte simbolização com o feminino, a romã, na idade Média, relaciona-se também com Maria, mãe de Jesus, que muitas vezes é representada, na imaginária sacra católica, com uma romã. Neste caso, a presença da romã, para o imaginário da época, representa a virgindade.

Nas nossas tradições brasileiras, multiculturais e multiétnicas, a romã integra alguns costumes do calendário do ciclo natalino, que segue até o dia 6 de janeiro, dia consagrado aos Santos Reis Magos.

A romã permanece nas nossas tradições populares com os seus valores simbólicos de fertilidade, porque a quantidade de sementes da fruta atesta um sentido de multiplicidade. E, comer as suas sementes, ou portá-las junto ao corpo, são maneiras de trazer proteção e experimentar um encontro com o sagrado.

Ainda, dentro da nossa multiculturalidade, as comidas sírio-libanesas, comumente chamadas de comidas árabes, que já fazem parte dos nossos hábitos alimentares, apresentam receitas como a fatuche, uma sofisticada salada que tem como ingrediente a romã. A salada fatuche é feita com alface-romano, rúcula, pepino, tomate, cebola, rabanetes, semente de romã, pão sírio; e temperada com zatar, sumagre, azeite de oliva, xarope de romã e sal.

A romã traz para a nossa mesa uma representação do Oriente, que está tão marcado nas nossas comidas desde as Grandes Navegações, no século XVI, e que fez a nossa cozinha globalizada, rica e plural. Assim, a romã integra a nossa construção de símbolos e de paladares, e promove um encontro com o sagrado.

RAUL LODY