Brasil Bom de Boca

O livre pensar sobre a comida e a alimentação

Categoria: Ideias (page 1 of 4)

COMER: UM ATO IDEOLÓGICO

Comer é uma ação que vai muito além de apenas ingerir a comida. Nasce de uma soberania alimentar, de um direito à alimentação.

O ato de comer traz um olhar contextual amplo sobre etnia, cultura, história, sociedade, religião e ecologia. Assim, a comida é entendida como uma diversa tradução dos diferentes ingredientes e suas múltiplas representações.

Escolher uma tendência ideológica enfatiza que há uma escolha, e que há um uso de determinadas comidas dentro do sistema alimentar escolhido, e que, a partir daí isso passa a atestar fundamentos dentro das relações sociais.

Busca-se, pela comida e seus rituais de comensalidade, mostrar o que há de peculiar dentro de um grupo, onde suas escolhas do que comer passa a manifestar alteridade.

E a soberana alimentar é uma forma de marcar identidade e pertencimento a uma tradição e a um povo, e também mostrar aspectos da gastronomia, da biodiversidade, dos rituais da alimentação, e dos significados dos cardápios do cotidiano e das festas.

Por exemplo, abaixo seguem recentes modificações de constituições de determinados países:

  • Desde 2010, a Constituição da República de Níger prevê o “direito à vida, à saúde, à integridade física e moral, ao acesso à comida saudável e suficiente, à água potável, à educação.” (Artigo 12)

  • Desde 2008, a Constituição da República das Maldivas prevê que o Estado se ocupe de “realizar o progressivo respeito para tais direitos através de ações que se voltem na sua capacidade e recursos” que incluam também o direito a “uma alimentação adequada e nutritiva, e à água potável.” (Artigo 23)

  • Desde 2009, a Constituição do Estado Plurinacional da Bolívia afirma que “cada pessoal tem o direito à água e à comida” e que “o Estado tem a obrigação de garantir a segurança alimentar, através de comida saudável, adequada e suficiente para toda a população.” (Artigo 16)

  • Desde 2008, a Constituição da República do Equador prevê uma proteção explicita porque “pessoas e comunidade têm o direito a ter acesso seguro e permanente a uma alimentação saudável, suficiente e nutricional, preferivelmente de produção local e em acordo com a sua identidade diversa e tradição cultural. O Estado promoverá a soberania alimentar.” (Artigo 13)

(Fonte: FAO (2014) – The Right to Food: Past commitment, current obligation, further action for the future) 

Foto de Jorge Sabino

Contudo, questões religiosas são fundamentais, e por isso são também formadoras dos conceitos alimentares, pois selecionam ingredientes e determinam cardápios, assim como os ciclos para o seu consumo dentro do cumprimento dos princípios simbólicos, e nutricionais, que estabelecem as relações entre o homem e o que é divino.

A partir da fé religiosa, e de seus princípios ideológicos, pode-se trazer as marcas das escolhas de ingredientes e de cardápios que estão integrados, ao mesmo tempo, com sagrado e com as regras da boa alimentação.

Por exemplo, a presença Mulçumana / Islâmica é fundante na formação social e cultural dos brasileiros. Os filhos de Alá civilizaram grande parte da península ibérica, e deram uma base a expressão identitária que foi transferida para nós pelos portugueses durante o processo de colonização lusitana.

E a partir do Alcorão, livro sagrado que traz também os aspectos sobre a conduta social, ética e moral, como acontece com outros livros, como a Bíblia, formam-se os princípios alimentares que são contextualizados pelas regras e hierarquias; e ainda pela busca da sanidade dos alimentos e da própria alimentação.

Assim, vê-se que a ideologia religiosa domina desde o sistema civilizador, que justifica, preserva e fiscaliza, até as condutas morais, num segmento rigoroso das prescrições de ingredientes que têm ou não o seu consumo permitido.

A presença judaica na formação social e cultural do brasileiro é intensa e, em destaque, os cristãos-novos que faziam parte das grandes levas de imigrantes durante a colonizadora lusitana. E a Torá, livro civilizatório como o Alcorão e a Bíblia, tem grande presença na vida cotidiana dos judeus, e implica diretamente nas suas condutas, especialmente no cumprimento de cardápios prescritos pela história e tradição dos herdeiros da tribo de Israel.

Como em todo segmento religioso, a comida é um registro da conduta moral e ética, e é um atestado ideológico diante do sagrado, que é fundacional no regulamento da relação com a sociedade, com o trabalho, com as hierarquias, e com o gênero. E os princípios milenares judaicos são orientadores de um pensamento recorrente: “nós somos o que comemos”. Um caso exemplar é a proibição do uso de sangue animal em qualquer preparo alimentar. Este princípio é tão antigo que remonta da consolidação religiosa do judaísmo, e tem suas raízes no tempo dos sacrifícios no Templo, onde o sangue do animal era devolvido à terra, e não ingerido, pois se poderia assimilar de sua alma contida no sangue.

Por exemplo: Na última ceia é relatado que na refeição de Jesus com os apóstolos, na data em que se celebra a Páscoa judaica, nos primeiros dias dos ázimos [matza – tipo de pão sem fermento], quando se imolavam [carneiro] a Páscoa, vê-se na mesa um novo conceito de sacrifício que é fundante para uma religião nascente. Assim, anuncia-se a Era do Cristianismo. Assim, o pão é dividido e ganha um sentido sacrificial.

O sentido do sangue sacrificial, e a carne de certos animais como o porco, por exemplo, é tabu para os muçulmanos e para os judeus. Contudo, este animal monta fartas e diversas receitas que fazem parte dos costumes alimentares dos cristãos, porque há diferentes conceitos ideológicos do “bem comer”.

Há uma ampla recuperação histórica e simbólica, a partir dos textos bíblicos, que mostra duas “mesas” separadas, a judaica e a cristã, que se caracterizam através de vários princípios que normatizam as condutas e os hábitos alimentares, e que são orientadores das escolhas dos ingredientes da organização dos cardápios, tanto na alimentação cotidiana quanto na episódica, no tempo das festas e dos rituais religiosos.

Assim, enquanto na cozinha judaica busca-se um sentido kasher, na cozinha cristã busca-se ser mais adaptável aos diferentes momentos dos povos.

RAUL LODY

Para se comer a imagem

Alimentação; exibição de comidas; ostentação de mesas de banquetes; preocupação com a biodiversidade; respeito aos ingredientes; promoção da comensalidade; comportamento slow ou fast food; valorização das comidas de verdade; todos estes temas são dominantes na atualidade nesse amplo e complexo mercado da gastronomia, tanto em contextos nacionais quanto internacionais.

A comida, dentro da sua diversidade, ganha um sentido de inserção social, e localiza a pessoa na sua cultura. Padrões sociais são atestados pelos cardápios, pelo acesso aos restaurantes; pela participação em festivais. E assim, a comida passa a ser um dos temas mais midiáticos na contemporaneidade. E os registros visuais sobre a comida são cada vez mais socializados nas mídias digitais para se tornarem objetos de desejo.

Tudo transita entre as comidas padronizadas, massificadas, presentes nos cardápios das grandes redes de fast food, e as comidas artesanais, identitárias, que são preparadas com ingredientes de torroir; entre tantos outros modos de se relacionar o que se come e como se come.

A comida está envolvida num mercado cada vez mais midiático, mais espetacular. Programas de TV aonde tudo pode acontecer, assim estripar um bode, desossar uma galinha fazem o espetáculo, que é muitas vezes mais importante do que a comida.

E o show precisa ser registrado, fotografado, e socializado nas redes sociais, como uma verdadeira atestação de um momento que deve fascinar visualmente o espectador.

E assim, pode-se dizer que se come refeições virtuais no cotidiano, porque ver a comida, apreciar a comida, interpretar a comida; e ter na comida um registro de status social, é o melhor cardápio.

Comer a imagem da comida, sem muitas vezes tê-la sequer saboreado, é como um ter um acervo pessoal gastronômico para simbolicamente se alimentar. E este emergente ritual contemporâneo de fotografar a comida, torna mais importante a imagem do que o ato de comer. E o compartilhamento da imagem ganha um valor de uma refeição, de uma refeição virtual, tanto para quem fotografa quanto para que faz parte desta rede social.

A fotografia, nesse caso, marca a pessoa e a sua conquista, seu prêmio, numa forma de distinção social a partir do tipo de comida, ou do lugar que se entra para comer, mesmo que não se coma nada.

A comida, sem dúvida, tornou-se um forte argumento para inclusão de pessoas na mídia de forma imediata. Ela passa a ser uma forma de recuperar, de se reinserir, na mídia. Por exemplo, uma atriz da televisão que está no armário da fama lança um livro de receitas, e quase magicamente ela recupera a sua fama com os programas do tipo “lar doce lar”.

O acesso fácil e imediato à fotografia alimenta a relação comida e imagem. E, sem dúvida, é na imagem que esta o melhor texto visual, o maior sentimento de gosto, a mais verdadeira realização de posse do alimento, mesmo sendo todos estes vetores virtuais, imagéticos.

São oferecidas ao público sensações, experiências extra-sensoriais através do paladar, promessas de descobertas de novos sabores, através das imagens.

Foto de Jorge Sabina

A comida é uma forma de argumentação, e ela pode revelar diferentes desejos. Desta maneira, as imagens das comidas funcionam para comunicar, localizar, diferenciar; e, ainda, determinar individualidade. As escolhas e as composições fazem com que a partir da relação entre a pessoa e a comida se crie uma nova identidade.

Cada hábito alimentar se relaciona com um estilo de vida ou modo de consumo, e isto mostra um conceito sobre a pessoa e a sua alimentação, e aí se pode entender como a pessoa se relaciona simbolicamente com o que come e porquê.

Todos esses argumentos estão relacionados à comida, que é antes de tudo uma imagem que provoca desejo, ela é um descritivo iconográfico de sabores, conhecidos ou desconhecidos, um registro que possui formas, cores e texturas, que resultam numa obra estética.

RAUL LODY

2019: os 80 anos do livro Açúcar de Gilberto Freyre

Que o brasileiro se identifica com o doce é um fato real, simbólico, e também civilizador por meio do açúcar processado da cana sacarina. E assim muitas receitas mostram como o entendimento do que é doce funciona em cenários da nossa história multicultural, que reúne receitas em abundância conforme os conceitos dos povos do Ocidente e do Oriente.

Com certeza, o brasileiro se identifica à mesa com as comidas doces. Possibilidades de encontros ancestrais e fundamentais com a nossa própria formação cultural, que se dá nas experiências com os muitos preparos feitos a partir do açúcar; açúcar da cana de açúcar.

Ainda nestes ambientes do consumo de doces em distintos momentos da vida cotidiana, ou para marcar celebrações especiais, há um destaque merecido para uma base feita de trigo, ovos, leite e açúcar, o nosso tão estimado bolo.  Muitas variações atestadas nas receitas; muitas que nós conhecemos, pois estão na formação dos nossos hábitos alimentares, na construção dos nossos paladares de brasileiros.

E para ampliar estas leituras tão doces sobre os bolos, trago a obra clássica de Gilberto Freyre, “Açúcar” de 1939. O livro é uma verdadeira celebração aos bolos, quando o autor mostra mais de 50 tipos diferentes de bolos tradicionais de Pernambuco.

 

Foto de Jorge Sabino

 

E para viver estes bolos patrimoniais, Gilberto afirma um sentimento plural e complexo sobre as relações culturais e gastronômicas com o doce e, desta maneira, declara um estilo de interpretar o que chega do açúcar e, em especial, os muitos bolos da memória e da sabedoria doceira de Pernambuco.

No livro “Açúcar”, diz Gilberto:

“Pode-se falar de um paladar brasileiro histórico e é possível também tropical ou ecologicamente condicionados; e como tal, ao que parece predisposto a estimar o doce e até o abuso do doce (…). Um doce o da preferência brasileira, como que barroco, e até rococó (…) é a arte mais sensual da sobremesa (…)”.

Gilberto reúne no seu livro Açúcar, a partir de seu olhar etnográfico para um acervo de receitas, a grande ocorrência de tipos e de vocações autorais dos bolos que marcam um trajeto e um retrato social e regional de Pernambuco, do Nordeste e do Brasil.

Para Gilberto, cada bolo é muito mais do que uma receita.  Ele, o bolo, traz uma variedade de temas, de personagens, de localidades, de santos de devoção, entre tantos outros motivos.  Cada bolo tem a sua individualidade, e marca, e assim constrói seus territórios de afetividade, de celebração, de religiosidade, de homenagem. Cada bolo é certamente uma realização gastronômica de estética e de sabor, e na sua maioria traz ingredientes nativos, “da terra”, mais uma maneira de atestar identidade.

Assim, bolo São Bartolomeu, bolo Divino, bolo São João, bolo Souza Leão; bolo Souza Leão à moda da Noruega, bolo Souza Leão-Pontual, bolo de milho D. Sinhá; bolo de milho Pau-d’alho, bolo Guararapes, bolo Paraibano, bolos fritos do Piauí; bolo de bacia à moda de Pernambuco, bolo de rolo pernambucano, entre tantos.

O bolo traz uma intenção, uma assinatura, uma receita; uma intenção pessoal ou coletiva, regional.  Ele marca o terroir do doce em Pernambuco.    

Também o significado de um bolo é repleto de valores familiares, de festas, de ritos de passagem; dos prazeres de se viver o milho, a mandioca, o chocolate, as frutas, os cremes; as coberturas de açúcar e frutas cítricas com a técnica do “glacê mármore”, branco e compacto, uma verdadeira delicia de cobertura, e se o bolo for o de frutas secas mergulhadas no vinho do Porto ou Moscatel, com a estimada receita de “bolo de noiva”, uma releitura do bolo de frutas inglês, um bolo do tipo “bolo-presente” para festas e celebração.

Nestes contextos, o bolo de rolo passa a marcar Pernambuco, como o acarajé marca a Bahia, pois tem uma forte relação com as populações, seus costumes, suas preferências de sabores que se dão em bases étnicas, históricas e sociais.

Este tipo de “bolo de rolo”, diria midiático, é uma interpretação, a partir dos anos 1950, de uma confeitaria do Recife, pois a base está na torta do Azeitão de Portugal, com a massa do tão conhecido pão de ló e o recheio de doce de amêndoas, que em Pernambuco recebe o recheio com doce goiaba.

Uma torta, segundo a confeitaria tradicional; é um bolo para Pernambuco. É a torta que virou bolo e assim recebeu uma devoção nativa que socializou este doce e, em contextos da globalização, como um quase Pernambuco à boca.

E agora, em junho, é o tempo dos bolos a base de milho e mandioca. São os bolos para festejar os santos de junho, Antônio, João e Pedro.   Santos populares que são lembrados à mesa, e cultuados nas memórias dos paladares como verdadeiros rituais gastronômicos dedicados às devoções dos sabores.

Assim, o açúcar determina uma heráldica na formação das receitas e nos rituais do artesanato do doce, trazendo tantas maneiras de viver o patrimônio alimentar de Pernambuco.

 

Raul Lody

Olubajé: os alimentos da colheita

Há nas religiões de matriz africana um forte sentimento de trazer a natureza, e seus símbolos, representada no seu cotidiano, e assim reconhece e atesta o ato de comer como um importante símbolo da alimentação.

Sem dúvida, cada preparo culinário feito no terreiro de candomblé tem um significado especial, e as comidas acompanham todos os momentos da vida religiosa. E, as festas dos terreiros buscam aproximar a pessoa do sagrado numa experiência de comensalidade coletiva.

Nessas diferentes formas ritualizadas de se relacionar com a comida, há um valor dominante que é o de respeitar a natureza, e por isto ela é sempre sacralizada nas suas representações, ora pelos ingredientes, ora pelas técnicas culinárias que são utilizadas. Além disso, os orixás trazem diferentes simbolismos, seja para vida, seja para fertilidade ou o sentido da multiplicidade, que também se relacionam com os alimentos.

Assim, os processos culinários artesanais usados para preparar os ingredientes e os cardápios, que serão servidos nos rituais para, sempre buscam uma comunicação com determinada divindade, e, desse modo, uma ligação com o homem.

As comidas partilhadas com as pessoas são, na maioria das vezes, as mesmas comidas que fazem parte da alimentação dos deuses e, assim, pode-se estabelecer uma aliança entre a comida, o orixá e a natureza. Ainda, cada elemento da natureza está representado num ingrediente, ou conjunto de ingredientes, que revela o sagrado e a memória ancestral da comunidade.

A estética é outro elemento que marca visualmente os pratos que são servidos, como também o uso de utensílios de determinados materiais; assim como as quantidades, as cores e as texturas, que mostram os significados de cada interpretação dessa gastronômica que alia o sabor do ingrediente ao símbolo devocional que ele representa.

Por exemplo, o amalá de Xangô, feito à base quiabos, só será reconhecido quando apresentado numa gamela de madeira e acrescido de acaçás brancos, ou bolas de arroz, entre outros complementos. Já o ebô feito para Oxalá, feito à base de milho branco cozido e sem temperos, deve ser apresentado numa louça branca, e, assim, a comida também será reconhecida pela cor.

O acarajé traz o elemento fogo, que é marcado pela sua fritura no azeite de dendê, fervente, e este ingrediente é também marcado pela cor avermelhada. Assim, o acarajé representa o orixá Iansã, uma das três mulheres e Xangô.

Quando estão juntos, os ingredientes e seus diferentes preparos simbolizam uma forma de tradução dos elementos da natureza, e quando se come a natureza também se come o sagrado. Desta maneira, o sagrado integra-se ao corpo, e o corpo torna-se sagrado pela comida.

 

 

Entre as tantas festas públicas de matriz africana que celebram a colheita através de muitas e diferentes comidas, que são partilhadas num ritual coletivo, está o Olubajé. E a celebração dos ingredientes que chegam da agricultura, numa oferta do que a natureza pode dar ao homem, isto na tradição ioruba.

Todos os participantes do Olubajé comem sobre folhas de mamona, verdadeiros pratos naturais que reunem um amplo cardápio de: carnes de aves e caprinos, cereais, leguminosas, raízes, folhas, dendê, entre muitos outros alimentos.

Um grande cortejo traz as muitas comidas num magnífico conjunto visual de variados utensílios portados de maneira solene e cerimonial ao som dos cânticos para o orixá Omolu, que também se relaciona com a agricultura, com os plantios e as colheitas. Farofa de azeite; doboru – popoca feita de milho-alho –; bolas de inhame; batata doce; acarajé; abará; acaçá de milho branco e de milho vermelho; ebô; milho com dendê; aberém – bolas feitas com massa de milho ou arroz que são cozidas em folhas de bananeira; efó. Todos comem juntos numa comunhão de fé e de respeito para com a natureza.

A natureza é uma das bases ideológicas dos terreiros, que são verdadeiros espaços de preservação das matas, dos rios, e do mar.

 

Raul Lody

Gula: um sentimento que vai além do prato

“No país da Cocanha, uma rara utopia da Idade Média (…) que aparece em um documento de 1250, descreve o território imaginário onde não se trabalha, onde tudo é luxo e volúpia.  Os campos de verduras prontas para serem consumidas, de sebes (cercas de plantas) formadas de salsichas que após serem colhidas e devoradas brotavam em seguida (…). As cotovias já caem inteiramente assadas nas bocas felizes mortais (…)”. (Lê Goff: 2003)

 

A comida, seja na cozinha de casa ou num restaurante da moda, ganha cada vez mais um glamour hollywoodiano. E os chefes de cozinha se tornaram verdadeiros ídolos na sociedade contemporânea; assim, também cardápios e comidas, e tudo mais que possa traduzir este fantástico fenômeno chamado comer.

Entretanto, o quê, onde, quanto, e quem tem acesso ao bem comer. Nestes cenários, a gula é um tema que precisa ser revisto por quem cozinha, quem come, e quem produz os alimentos.

Destaque para o crescente número de obesos, que ao mesmo tempo podem estar subnutridos; e, ainda, há os desnutridos, tanto no Brasil quanto ao redor do mundo. A fome é um fenômeno que merece ser olhado globalmente, pois tem aumentado em muitas regiões de um mundo que, ao mesmo tempo, fica cada vez mais gordo.

O comer bem, o comer muito, a gula; o pecado; ganham novos sentidos e sentimentos nos cenários do fashion food e das cozinhas tradicionais.

 

Imagem do KUNSTHISTORISCHES MUSEUM WIEN em foto de JORGE SABINO

 

Os diferentes conceitos históricos sobre o ato de comer, sobre a gula, estão sendo sempre relativizados, juntamente com tudo o que compõe e integra o universo da alimentação. Há diferentes significados para o que é comer bem ou comer muito, ou como se dá a escolha do alimento dentro das sociedades ao longo da história do homem.

As cozinhas tradicionais do Brasil são maternais, e, dessa maneira, se caracterizam por quantidade, o que a torna rica e criadora de gulosos. Nela há muito e diferentes pratos para se comer bem; e vigora ainda o ideal do comer muito e, em especial, nas celebrações, nas festas. Assim, reforça-se um olhar de que muito significa fertilidade, que é a fartura.

O “muito” é a quantidade representada nas suas mais profundas variedades de ingredientes, receitas, processos culinários, cardápios, rituais de alimentação; hierarquias, lugares sociais para viver as comidas.

Por exemplo, para falar de feijoada e preciso falar de prato cheio, uma montanha, mistura de feijão e farinha, geralmente com gordos adubos como, por exemplo, linguiça, toucinho, carne seca e salgada; ainda, a laranja ao lado da couve à mineira; da farofa tão gorda quanto o feijão, e aquele arroz branco, quase ingênuo que vai morar junto, e tudo mais que esta leguminosa possa receber para atrair impiedosamente o comensal à mesa; e, então, celebrar a feijoada. E para começar, tem-se a abrideira com cachaça e frutas.

Outro exemplo é o acarajé contemporâneo, um quase sanduíche, daí o nome sanduíche Nagô, que recebe recheios de vatapá de acarajé, que é diferente do vatapá de mesa; camarão defumado, refogado no dendê; caruru; salada; molho grosso de pimenta; e é assim que a África vai à boca, e a gula também.

A gula é um pecado que precisa ser recuperado como virtude, e afastar a sociedade de um comportamento cada vez mais “anoréxico”, e necessitado de alimento.

É o sentimento e o destino onívoro do homem que dão as bases para os temas religiosos do comer, do jejum, dos tabus alimentares; do que se pode comer ou não se pode, ou quando se come deverá cumprir algum ritual específico.

Com certeza, vive-se um novo conceito de gula, e novas considerações sobre os contextos culturais da alimentação.

Desse modo, a saciedade passa a ser um tema que faz parte dos processos sociais e econômicos das sociedades. São novos olhares sobre ingredientes, técnicas, estéticas, entre tantas questões que trazem todos os valores que estão agregados aos rituais sociais da alimentação, e nos possibilita rever os nossos entendimentos sobre o que é gula, e o que é pecado.

 

Raul Lody

 

 

A estética das marmitas

Comer fora de casa indica contextos sociais e econômicos que orientam as muitas e diversas maneiras de levar o alimento para fora da casa. São opções e formatos de cardápios com receitas já consagradas pelos hábitos alimentares que estão presentes nas marmitas.

Comer fora de casa, usar marmitas, aponta para atividades profissionais que se realizam tanto nas áreas rurais quanto urbanas. Também, vê-se que a soberania alimentar e as tendências nutricionais, na maioria das vezes, orientam o que está em cada marmita.

As receitas são normalmente organizadas a partir dos sistemas alimentares, e assim usam ingredientes regionais que estão associados às condições socioeconômicas. Tudo acontece numa tentativa de levar o hábito alimentar da casa para fora dela, para o trabalho ou outro ambiente social. A ideia é manter a refeição diária em porções que se relacionam com ideal de saciedade, de sentir estar bem alimentado conforme o padrão daquela cultura.

A marmita normalmente é preparada pela própria pessoa ou membro da família, ou ainda um profissional que ofereça variado cardápio. São formas de se oferecer cardápios numa embalagem especial que visa manter a conservação dos alimentos. A marmita pode ser feita de diferentes materiais, mas tradicionalmente é usado o alumínio.

“Comer de marmita” traz receitas com ingredientes simbólicos já consagrados pelo brasileiro, como o arroz, o feijão, a farinha de mandioca; a carne de gado vacum, a carne de galinha; entre outros, como, por exemplo, sanduíches, frutas, além de outros alimentos práticos de serem transportados.

 

Foto de Jorge Sabino

 

De uma longa e antiga tradição chinesa, as marmitas chegam ao Japão, e trazem uma maneira ancestral de embalar as comidas a serem transportadas para o local de trabalho em porções individuais. Esta embalagem para portar a comida é chamada de “obentô”, que pode ser feita de madeira, especialmente de bambu.

O “obentô”* porta cardápios tradicionais como arroz, legumes, carne ou peixe, conforme os hábitos alimentares e os conceitos nutricionais das cozinhas do Japão. *Obentô significa “porção de comida para levar”, e tem origem na palavra chinesa “biàndang“, que significa “conveniente”.

Além do valor nutricional dos alimentos, as cores também dão sentido aos cardápios dos “obentô”, e assim há uma estética funcional que determina a organização dos cardápios. Isto porque as cores marcam a variedade dos ingredientes, e revelam as opções que fazem parte daquele cardápio.

No caso brasileiro, há uma forte tendência a bicromia do branco e preto, arroz e feijão. No entanto, há um destaque hierárquico na marmita para a carne. Seja ela qual for e como for: assada, cozida, frita; moída, picada; ela representa o símbolo do “bem comer”, ou do poder comer carne, que é um arremate considerado vitorioso no ato da alimentação. Um substituto para as carnes é o ovo, normalmente o ovo frito, que coroa as camadas de feijão e de arroz, e também tem o seu consumo triunfal no arremate da refeição.

As marmitas mais comuns são feitas de alumínio, e são requentadas de diferentes maneiras, e geralmente têm um talher que é escolhido para acompanha-la.

Atualmente as embalagens das marmitas passaram por diferentes conceitos de materiais e marcas, como, por exemplo, Tupperware. Fruta in natura, comida de uma determinada dieta; ou ainda, os alimentos ditos funcionais, a marmita traz uma rica e ampla relação de cardápios.

A embalagem que comporta um alimento, também comporta um conceito de refeição, uma opção ou uma necessidade do que é possível comer conforme a disponibilidade. E, a partir daí, nestes cenários sociais, já começam a aparecer as marmitas “gourmet”.

Raul Lody

Latipá ou Amori. Os sabores africanos na Bahia de Manuel Querino

Para comemorar os 90 anos do livro “Arte Culinária da Bahia”.

“A Arte Culinária da Bahia”, livro de Manuel Querino (1928), é um marco sobre os estudos das matrizes africanas no Brasil, e sobre os ingredientes e os sistemas alimentares; neste caso, as comidas dos ioruba, que são preservadas nas receitas e nas cozinhas do Recôncavo da Bahia. Em Querino, há um olhar afro-muçulmano marcante, visto que muitas das receitas chegam dos iorubas islamizados.

Em que se vê uma expressão da ampla cozinha ibérica, também conformada pela ação civilizadora do Magrebe por um longo período, com africanos do Norte, mediterrâneo, que estendiam o Islã pelos territórios conhecidos, à época, como Al-Andaluz.

Ainda, Querino apresenta, no seu livro “A Arte Culinária da Bahia”, receitas com ingredientes nativos, e outros da cozinha colonial cozinha portuguesa. E destaca como um elemento tradutor da Bahia, à época, uma cozinha africana da costa ocidental, de povos procedentes do golfo do Benin, de civilizações subsaarianas.

Nestes cenários históricos e sociais, até hoje, as cozinhas dos terreiros de candomblé são verdadeiros memoriais de ingredientes, de técnicas culinárias, de receitas, e de estilos de pratos. E por tudo isto, são verdadeiramente cozinhas patrimoniais.

Querino mostra essa África nos cardápios da Bahia, e nas suas experiências de homem negro e integrado ao candomblé, inclusive participava do antológico terreiro do Gantois.

Sem dúvida, a importância das comidas nos candomblés traz o sentido devocional dos alimentos para os deuses e para os participantes dessas comunidades, que vivem cardápios especiais na cidade do Salvador, Bahia. Comidas do cotidiano e comidas das celebrações, nas casas e nas festas de Largo.

 

Foto de Jorge Sabino

 

O sentimento de Manuel Querino, em relação à comida, é um sentimento de pertença, de valorização das referências que trazem histórias pessoais que se ampliam nas muitas maneiras de ver e de interpretar as matrizes africanas que fazem parte da Bahia, de uma Bahia do final do século XIX e início do século XX.

Por exemplo, as chamadas “comidas verdes” são aquelas feitas a partir de folhas, e de outros ingredientes vegetais: maniçoba, efó, caruru; amalá, também de quiabos como o caruru; ou até mesmo o molho lambão, molho fresco, com tendências verdes, são destacadas por Querino em leituras especiais sobre o latipá ou amori.

Diz Querino: “Latipá ou amori feitas com folhas inteiras de mostardeira, as quais, depois de fervidas, temperavam como o efó e deitavam a frigir no azeite de cheiro”. (A arte culinária da Bahia. WMF Martins Fontes. Org. e notas Raul Lody)

Querino, assim, aproxima o latipá ou amori do efó quando informa que os temperos são os mesmos: malagueta seca e ralada, sal, dendê e camarões defumados.

Latipá ou amori e o efó são acompanhamentos consagrados para peixes, para outras comidas de azeite como farofa; e para as comidas brancas, sem condimentos, como bolas de inhame, acaçá branco, massa e arroz; que são assim harmonizadas com as comidas mais condimentadas da mesa afro-baiana.

Muitas dessas comidas que trazem imaginários de formas e sabores são preservados na tradição culinária dos terreiros, e a partir destas referências, muitas receitas são repetidas nas casas, e em alguns raros restaurantes que querem revelar a diversidade das comidas patrimoniais da Bahia.

As cozinhas dos terreiros assumem um valor destacado por continuarem com as receitas, e as escolhas de ingredientes no rigor de um conjunto de costumes que encontram no sagrado o grande argumento. E esta é uma das formas de preservar as comidas dentro do contexto de um patrimônio alimentar integrado à vida da Bahia.

 

Raul Lody

Comida, Casa & Sociedade

Celebração dos 95 anos da Tese “Social life in Brazil in the midle of 19th Century” de Gilberto Freyre.

“Os trabalhadores dos grandes engenhos e das grandes fazendas patriarcais do Brasil dos meados do século XIX eram de ordinários bem alimentados e recebiam cuidados dos senhores como se fossem – depõe um observador estrangeiro – uma “grande família de crianças”. Tinham três refeições por dia e um pouco de aguardente de manhã. A primeira refeição constituía de farinha de pirão ou pirão, com frutas e aguardente. Ao meio-dia, faziam uma refeição muito substancial, de carne ou peixe. À noitinha, feijão preto, arroz e verduras. ”

(Freyre, Gilberto. Vida social no Brasil nos meados do século XIX. Editora Artenova. Rio, IJNPS, Recife, 1964.  Pg. 63)

Esta Tese de 1922, de Gilberto Freyre, foi um texto germinal e orientador para uma ampla e diversa produção intelectual sobre o brasileiro e, em especial, sobre o pernambucano.

Gilberto interpreta, muitas vezes a partir da sua história de vida, os temas que fazem parte das bases sociais da civilização açucareira, e sobre a “família patriarcal”. Tudo está integrado num olhar plural que sempre reafirma a sua predileção pelo Nordeste.  E, Pernambuco é um tema dominante para orienta as suas escolhas por métodos e leituras, sempre complexas, sobre os estilos peculiares da colonização lusitana; e destaca a co-civilização dos povos africanos com foco sobre o Magrebe, os afro-islâmicos.

Assim, com este entendimento de multiculturalidade a partir da cana de açúcar, são estabelecidos os fundamentos culturais de uma colonização aonde a casa determinava o melhor retrato da vida social, do trabalho, da festa, do sagrado, dos hábitos, das comidas, do vestir, e do morar.

Para Gilberto, a casa é o palco mais notável do drama cotidiano. A casa é a síntese colonial. É o espaço para os ritos de passagem e para tudo que possa expressar identidade.  A casa determina e legitima os lugares sociais de poder, a religião, e no caso do trabalho, o fazer açúcar.

Essa Tese é a grande base para Gilberto produzir a sua obra “Casa-Grande & Senzala”, publicada nos anos 1930, que passa a ser uma interpretação sobre a formação do Brasil pelo olhar do açúcar.

Sem dúvida, o açúcar determina os sistemas alimentares, o que possibilita uma ampliação de cardápios, e estabelece estilos de trazer o milho, a mandioca, o caju, a goiaba, a pitanga, o umbu, a mangaba, e a pitomba à mesa; além de trazer também uma variedade de peixes, crustáceos, caças; entre outros produtos da “terra”, que substituíam outros produtos, na preparação de receitas que se tornaram novas comidas com sabores já nacionais.

Ainda, com o açúcar há a consolidação dos doces, de uma doçaria regional autoral vinda dos engenhos de açúcar com assinaturas familiares, de tendências, onde o gosto pelo doce mais doce marca uma das identidades mais própria do paladar pernambucano.

Os temas econômicos estão presentes na interlocução com o açúcar, e uma verdadeira civilização nasce deste processo de transformar a cana sacarose em produtos como: garapa, mel de engenho, rapadura, açúcar e cachaça. E também passa a revelar as nossas preferências e a formar verdadeiros patrimônios alimentares.

“A sinhá-dona do sobrado tanto quanto a da casa-grande de engenho ou de fazenda, também superintendia o preparo das refeições, o fabrico de doces em conserva e em calda, o cozimento de bolos (…)”. (Pg. 67. Ibidem)

 

Foto Jorge Sabino

 

Nesses contextos, a mulher está no domínio da casa e da alimentação, nos espaços das cozinhas que se tornam verdadeiros territórios privilegiados para os hábitos, para as memórias, para as experiências patrimoniais através dos acervos do comer e do beber.

Por tudo isso, a casa para Gilberto Freyre é um local de múltiplas relações, e tudo será sempre ungido pela comida, que têm significados que vão muito além do simples ato de alimentar.

“Era nas mesas, nos grandes pratos cheios de gorda carne de porco com feijão preto, de pirão (…) de canjica, de pães doces, de doces, de bolos, e de sobremesas frias, que os brasileiros mostravam sua melhor hospitalidade patriarcal. ” (Pg. 81. Ibidem)

Assim, a Tese “Vida social no Brasil nos meados do século XIX” apresentada por Gilberto Freyre na faculdade de Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais da Universidade de Columbia teve por objetivo conquistar o grau “Articum Magister ”; foi, com certeza, um acervo pioneiro pela suas interpretações humanas e contextuais, mostra um avançado olhar para a construção de métodos sociais e antropológicos que se ampliam nos campos da história social, dos direitos culturais, dos patrimônios culturais, que dão atualidade conceitual a obra de Gilberto Freyre.

 

 

Raul Lody

 

Em cada comida há uma história, um direito, um patrimônio

“Na Bahia, para fazer caruru “de preceito” de Cosme e Damião deve haver também alimentos nas quartinhas, nos pratinhos de barro, além de tudo aquilo que deve ter o caruru, que é um verdadeiro banquete de comidas de azeite”.

Cada comida, cada ingrediente, traz uma referência e integra diferentes acervos que tornam os rituais sociais de comensalidade importantes momentos aonde se vivem os patrimônios alimentares de um povo, de uma região, de um segmento étnico.

Dessa maneira, para entender a comida brasileira é preciso buscar as grandes civilizações americanas que se uniram com a Europeia a partir da chegada do homem português, século XVI. O homem lusitano trouxe experiências históricas, comerciais e culturais, tanto do Ocidente quanto do Oriente; e, por isso, pode-se dizer que sua chegada foi globalizada, pois, sem dúvida, o reino de Portugal, com as Grandes Navegações, experimentou a primeira globalização no mundo.

“As civilizações” da mandioca, da batata, do milho, já faziam parte da produção de alimentos e da formação de sistemas alimentares dos povos da América do Sul e Central há mais de cinco mil anos. Destaque para a variedade de batatas; de mandiocas, com mais de quatrocentos tipos domesticados; de milhos, com centenas de tipos. Todas essas variedades revelam diferentes formas, cores, texturas e sabores, que atestam uma rica e importante biodiversidade.

 

Foto Jorge Sabino

 

E a experiência de globalização do homem português começa pela presença, por vários séculos, das civilizações da África mediterrânea, o Magrebe, que expandiu a cultura do Islã pelo Ocidente; que após a reconquista do seu território, passa a usufruir das novas técnicas de navegação e de construção naval, heranças do Magrebe.

Assim, Portugal se lança ao mar na busca de novos territórios, novos mercados, porque: “Navegar é preciso”.  E chega ao Japão, a China, a Índia; as Costas, ocidental e oriental, do continente africano; as Américas; e, enfim, ao Brasil.

Todos estes fatores estão juntos quando se constrói no Brasil uma das mais diversas produções de alimentos, somente comparáveis em diversidade com a Índia, a China e o México, que nas suas bases multiculturais mostram cozinhas plurais no uso de ingredientes, de preparos, de representações simbólicas, e de técnicas culinárias que marcam cada comida no seu contexto histórico e social.

Pode-se dizer que o brasileiro, na sua diversidade de territórios, de etnias e de civilizações, convive com muitas e diferentes cozinhas; e não há uma cozinha única no Brasil, e sim muitas cozinhas brasileiras.

Essas cozinhas mostram um povo formado por europeus ibéricos já aculturados por uma África Magrebe; e com muitos outros povos do continente africano das regiões subsaarianas, que chegaram ao Brasil em condição escrava, estimasse em torno de seis milhões de pessoas que vieram para fazer açúcar. Ainda, centenas de povos indígenas, que à época do “descobrimento” falavam mais de trezentas línguas diferentes, o que significa trezentos grupos culturais diferentes.  E integrados a este contexto, as imigrações da Europa, do Oriente Médio, e da Ásia, intensificadas no século XIX e início do XX.

Hoje, em pleno século XXI, vive-se uma nova e grande diáspora, onde mais de sessenta milhões de pessoas imigram como refugiados para várias partes do mundo. E, o Brasil recebe parte desses imigrantes, que quase sempre passam a afirmar sua identidade cultural, social e econômica, pelas comidas patrimoniais que estão preservadas nas suas memórias a partir das receitas e dos processos culinários que trazem consigo.

 

Raul Lody

 

(originalmente publicado no Jornal A Tarde)

 

Raul Lody, museólogo e antropólogo: “Há um processo de demonização da cultura brasileira”

Pesquisador, ele veio ao Rio como curador da exposição “Festa brasileira”, no Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro

” O aniversário, o batizado, o casamento e o velório, que é uma espécie de festa também. Cada uma dessas celebrações é muito autoral, muito pessoal e muito própria. A festa é um momento de rompimento, e esses temas são rupturas. Nascer é irromper, fazer aniversário é romper o tempo, casar é uma ruptura social, e morrer é uma ruptura com a realidade”, diz antropólogo – Ana Branco / Agência O Globo

por Lucas Abreu

“Moro no Recife, mas sou carioca da gema. Sou museólogo e antropólogo de formação. Basicamente, meu trabalho é um estudo sobre a confecção de peças de artesanato e a realização de festas populares pelo Brasil. Atualmente, também me dedico a pesquisar a culinária do nosso país.”

Conte algo que não sei.

Há um movimento de repressão emergindo e isso afeta a expressão coletiva, de pertencer a uma história ou tradição. É um movimento que é quase uma nova inquisição, onde as questões não são apenas religiosas, mas éticas, morais ou de gênero. Existe uma frente repressora muito forte, que vai causando o desaparecimento de festas e expressões populares. Muitas pessoas já não dançam, não cantam, não fazem seus objetos, não louvam seus mitos, não comem mais suas comidas. Porque, de repente, tudo virou. É um processo de demonização perverso da cultura brasileira.

Mas, hoje em dia, não temos mais à história dessas tradições populares, apesar da repressão que o senhor diz existir?

Sim, as mídias digitais possibilitaram a democratização desses conhecimentos. É fantástico, por exemplo, ver coisas que, antes da internet, dificilmente você saberia existir. As mídias digitais deram projeção a muitos movimentos. E, ao mesmo tempo que há esse processo de destruição cultural, há um movimento de luta e defesa.

O senhor acha que esse processo de destruição pode estar relacionado, ou até mesmo ser uma resposta, a um processo de autoafirmação?

Sim. Existe uma luta pelo poder, pelo controle desse patrimônio. O Estado também é um lugar de disputa, não é o inimigo. Estamos deixando de ser um país laico. Mas também podemos preservar nossas tradições populares com políticas de Estado.

As festas e tradições populares estão desaparecendo?

Muitas delas estão deixando de acontecer. Muitas pessoas não brincam mais no Bumba-meu-boi do Maranhão, por exemplo. Muitas pessoas não saem mais com seus grupos e cortejos porque optaram por outras tradições religiosas e culturais. Você não pode beber, não pode cantar, não pode usar máscara. A pessoa opta por esse tipo de tradição, o que é uma perda muito grande das nossas histórias.

Como essas festas conviviam com a tradição católica antes?

Não foi suave, mas houve apropriação, porque a maioria dessas festas tem um viés religioso católico, embora não exclusivamente. O Bumba-meu-boi do Maranhão, ao mesmo tempo que tem um personagem africano, o Cazumbá, é uma louvação a São João Batista, por exemplo. Temos uma intimidade com o sagrado que é muito própria do Brasil.

E essa intimidade subverte o sagrado tradicional?

Às vezes, sim. É um processo de apropriação em que a pessoa traz o sagrado pra casa, para a sua intimidade. O São João dela pode não ter nada a ver com o oficial, mas é dela. É um sagrado muito mais humanizado, muito mais próximo. E as matrizes africanas permitem mitologias e deuses extremamente humanos.

Quais são as festas do Brasil que ninguém pode perder?

As festas familiares. O aniversário, o batizado, o casamento e o velório, que é uma espécie de festa também. Cada uma dessas celebrações é muito autoral, muito pessoal e muito própria. A festa é um momento de rompimento, e esses temas são rupturas. Nascer é irromper, fazer aniversário é romper o tempo, casar é uma ruptura social, e morrer é uma ruptura com a realidade. O ciclo é marcado, seja pelo bolo, pelo presente, pelo canto ou por uma missa.

 

 

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