Sem dúvida, a comida não é apenas para ser comida. A comida é um amplo e complexo processo de simbolizações, de referências; e de construções ideológicas daquilo que é nacional ou regional; e ainda expõe as muitas idealizações sobre as recuperações patrimoniais das matrizes étnicas de um povo.

E há muitos povos e culturas africanas existentes no Brasil e, em especial, na Bahia, que nos caracterizam como um território que é autenticado por essa africanidade. Em destaque, o acervo culinário que atesta as memórias ancestrais e afirmam as presenças dessas culturas.

Porém, são muitas e diferentes “Áfricas” que foram construídas e reinventadas ao longo do caminho da diáspora, como é o caso da afro descendência no Brasil, considerada como a maior do mundo.

E o nosso tão estimado acarajé está vinculado a um ideal de matriz africana, a um entendimento de África-Mãe. Ele é um caso exemplar, que vai muito além de um bolinho feito de feijão fradinho, sal e cebola, que é frito no azeite de dendê; pois o acarajé marca uma permanência africana.

Também as nossas escolhas alimentares se integram à música, à dança, ao teatro popular, as festas religiosas, à língua que falamos. Porque tudo isso é marcado por elementos civilizadores que comunicam o que é afro e o que é afro-baiano.

Assim, o acarajé passa a ser um emblema que se incluiu na elaborada e complexa construção religiosa do candomblé, e mostra que na diáspora houve uma forma eficaz de marcar identidade através da comida e do sagrado.

E o candomblé traz importantes bases rituais e culinárias através de ingredientes, e de comidas que têm os seus oferecimentos marcados pelo respeito aos momentos de comensalidade religiosa. Exemplo é a festa de Iansã ou Oyá realizada em alguns terreiros que rememoram o ofício das baianas de acarajé, onde num momento da liturgia, o orixá oferece ao público, numa gamela ou num tabuleiro, o acarajé.

Segundo os itãs, histórias sagradas que são transmitidas oralmente há milênios pelos iorubá, Iansã é a mulher do orixá Xangô, e ela descobre que também tem o poder de botar fogo pela boca.

Então, o acarajé afro-baiano passa a ser interpretado, numa etimologia idealizada, como “bola de fogo”, numa alusão ao orixá Iansã, que no imaginário sagrado é a dona do acarajé. Sabe-se que etimologicamente na língua ioruba a palavra àkarà significa bolo ou pão, e a palavra je é o verbo comer, então, acarajé significa bolo de comer.

Na África Ocidental, no golfo do Benin, destaque para a Nigéria e para o Benin, onde o àkarà é uma comida feita em casa e que integra o café da manhã, sendo um bolinho de feijão que é frito em diferentes tipos de óleos, inclusive dendê. Este bolinho tem o formato de uma colher de sopa, e é acompanhado com moin-moin, pão feito de trigo, e mingau feito à base de milho branco – ekó.

Nessa diáspora alimentar, de base nigeriana, o nosso acarajé ganhou um sentido ritualizado, e desse modo manteve as suas características enquanto comida e símbolo que referenciam as mulheres dos mercados africanos, e que aqui elas estão representadas nos tabuleiros, são as nossas baianas de acarajé.

RAUL LODY