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Carnaval-afro: da farofa de dendê ao feijão preto

Quando pensamos no Carnaval brasileiro, pensamos naquela realização popular, multicultural, cheia de linguagens expressivas como música, dança, trajes, gestos, mímicas. Porém não devemos deixar de incluir também as comidas especiais que são servidas tanto para os homens quanto para os deuses.

O Carnaval é um amplo processo social que se manifesta na forma de ritual coletivo, e que para alguns grupos profissionais se alongam por todo o ano para ter sua culminância nos três ou quatro dias, onde se celebra a festa da carne.

Nesse infindável processo de preparação da festa, atinge-se o clímax nos dias dedicados ao rei da folia, sua Majestade Momo. No término de cada ciclo, novamente reconstrói-se o carnaval para o próximo ano.

 

comida de carnaval, foto de Jorge Sabino

Foto de Jorge Sabino

 

O Carnaval, que nos foi oferecido pelo europeu e introduzido no calendário por questões religiosas cristã, antecede a Quaresma, que é o início de um período de quarenta dias de reclusão, orações, e abstinências alimentar e sexual, que só para serem suportados precisa-se da liberação do corpo no Carnaval, para num segundo momento dar vasão ao espírito.

Desta tradição cristã, o carnaval ganha uma energia africana, e encontra espaços de expressão aonde se pode manifestar memórias, tradições, mitos, e orixás que são festejados na esta, no tempo do carnaval.

São os Afoxés que vivem nas ruas os rituais religiosos e sociais da grande massa humana adepta dos Candomblés. É também cortejo carnavalesco conhecido como Candomblé de Rua, por realizar nestes cortejos danças e cantigas dos rituais internos dos templos de Candomblé, especialmente os do modelo etno cultural ijexa.

Tudo começa num ritual inaugural com um oferecimento que é feito na rua, e segue um ritual chamado “padê”, que é formado por farofa de dendê, farofa branca, cachaça e quartinha de barro com água, para a assim alimentar Exu, o senhor das ruas, também íntimo da festa do Carnaval.

Os Afoxés saem às ruas e levam a charanga, conjunto instrumental, principal motivo de animação do grupo. E abrem o cortejo com o estandarte que traz as cores, os emblemas, as legendas e o nome da agremiação.

Essa forte vertente afro-brasileira se amplia em dois grandes caminhos. O primeiro, com os grupos que, por relações étnicas, incorporaram sistemas socioculturais afro-brasileiros, e têm suas manifestações organizadas na unidade da vida cotidiana, e o que fazem são realizações tidas e consagradas no âmbito das memórias africanas.

O segundo caminho é aquele que busca uma motivação estética afro-brasileira para os enredos, ou seja, numa tentativa de trazer africanismos que têm presença visual fundamentada na vida dos integrantes que fazem parte das Escolas de Samba. Estas Escolas também nascem de um longo processo de expressão cultural e de resistência através do samba.

Unem-se, ainda, as tradições dos orixás e de certos santos da igreja, e entre eles um dos mais populares nas devoções das Escolas de Samba é São Jorge.

Em algumas tradições, este santo é também chamado de Ogum, o guerreio. É também Oxóssi, o caçador. Como acredita-se que Ogum tem preferência pela feijoada de feijão-preto, nas quadras das Escolas acontecem durante todo ano as feijoadas tradicionais, ricas em carnes salgadas, e carnes frescas as chamadas “carnes verdes”, embutidos e, em especial, os temperos autorais das tias, antigas senhoras que fazem a guarda das memórias do samba e da Escola.

 

comida de carnaval, foto de Jorge Sabino

Foto de Jorge Sabino

 

Assim, essas feijoadas tornaram-se famosas por causa das suas assinaturas culinárias, além de assumiram diferentes papéis socializadores que agregam a comunidade, a religiosidade, a Escola e a comida. Nestas experiências com o sagrado unido a festa, vive-se de maneira mais livre a realização do encontro com a ancestralidade africana e os seus deuses míticos.

Raul Lody

DIDÙN DENDÊ: um doce de dendê

O dendezeiro e o seu fruto trazem imaginários gastronômicos, religiosos, cosmetológicos que seguem os costumes e as tradições de muitos povos africanos.

Sem dúvida, no Brasil, o imaginário do dendê está no vatapá, no acarajé, e em muitos outros saborosos quitutes da mesa baiana com base na matriz africana; digo aquele feito da flor, o seu mais suculento azeite.

Os produtos que chegam do dendezeiro marcam um rico e dinâmico imaginário sobe a África na Bahia, e em todo o processo da diáspora. O dendezeiro é uma palmeira que chegou do outro lado do oceano dos tubarões, o Oceano Atlântico. Ele é nativo de uma vasta área do continente africano que vai do Senegal até Angola, e segue também da costa ocidental até a costa centro-atlântica ou África austral.

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foto de Jorge Sabino

O dendezeiro é uma palmeira fundamental para um grande território do continente africano. Ele é considerado uma árvore sagrada, o igi opé para os iorubas, e representa Ogum, orixá essencialmente civilizador e transformador das tecnologias e dos implementos para a agricultura, para a caça e para a defesa.

Do dendezeiro tudo é aproveitado, seja para construção de casas, objetos variados, instrumentos musicais e, em especial, o seu fruto para ser transformado em azeite, e da seiva do dendezeiro se faz um tipo de bebida chamada de emu – vinho de dendê.

Há relatos da venda de rua na cidade do São Salvador do vinho de dendê, uma bebida fermentada.  Que faz parte de um conjunto de bebidas artesanais e comuns nos cardápios tradicionais das populações de matriz africana, tais como o aluá e o afurá.

O sabor, a cor, o perfume, a estética, marcam os muitos e diversos usos do azeite de dendê nas receitas salgadas da culinária de matriz africana que fazem parte da construção da identidade alimentar da mesa afro-baiana.

Nesse longo processo do tráfico de africanos em condição escrava, o dendê chegou ao Brasil; e do Brasil foi levada a mandioca, a cachaça, a rapadura e o fumo-de-rolo para a África.

A nossa mandioca, nativa da América, passa então a criar um rico cardápio de pratos, entre eles o infunji, um pirão de mandioca que é um prato nacional de Angola.

O dendê não está apenas no Recôncavo da Bahia, onde se situa a cidade do São Salvador, está também na região amazônica, onde se encontra uma rica culinária de dendê, também em receitas de vatapá e caruru, como as que são feitas no Pará. E no Maranhão, as comidas sagradas na Casa das Minas e na Casa de Nagô revelam receitas feitas com o azeite de dendê, inclusive acarajés.

O dendê marca muitas receitas que estão nas casas, nos restaurantes, nas feiras, nos mercados onde se encontram as moquecas, o efó, o abará, o feijão-de-azeite, o caruru. Também nas cozinhas dos candomblés com amplos cardápios de uso e significado religiosos e social.

Entretanto, nesse diverso acervo culinário africano também há um doce, um doce que é feito de dendê. Dendê doce? Sim. É uma receita angolana chamada de dendéns em calda que é feito com os frutos do dendezeiro, coco, açúcar, erva-doce e casca de limão.

Destaco também que no tradicional Caruru de Cosme, festa anual que se comemora os santos gêmeos Cosme e Damião, que está associado à mitologia dos ibejis dos iorubas, temos a banana-da-terra frita no azeite de dendê e pulverizada com açúcar e canela.

Há um sentimento dominante que relaciona o dendê com a matriz africana, numa maneira patrimonial de ver e de representar o mundo.

 

Raul Lody

 

(originalmente publicado no Jornal A Tarde, Bahia)