O vatapá da Confeitaria Colombo

A Confeitaria Colombo é um marco na história da alimentação do Rio de Janeiro e do Brasil. É um lugar marcado pelas tradições do chá, da boa comida, num contexto que valoriza os rituais de comensalidade.

A Colombo é um exemplo dos ambientes mais notáveis da Belle-Époque, fundada por portugueses em 1894, que constroem uma referência do bem comer, do viver as sociabilidades num lugar especial, onde se mergulhar num cenário marcado por magníficos espelhos que vieram da Antuérpia; que passaram a refletir uma especial, rica e diversa, cozinha internacional com clima brasileiro.

Os garçons da Colombo são especiais, para um ambiente especial, também para um público especial que hoje já está muito distanciado daqueles que se produziam para tomar chá, ou para os encontros, para viver os cenários que remetem ao glamour de um Rio de Janeiro distante. Contudo, o avanço do turismo gastronômico recoloca a Colombo como um dos principais endereços da alimentação no Rio de Janeiro.

Sem dúvida, ir a Colombo com a fome de comer a Colombo é uma imersão nos sentidos, uma profusão visual, e sonora com o barulho musical das conversas, dos pedidos dos pratos, de uma vida intensa que se dá à mesa. Tudo isso, ao som do pianista que cria uma atmosfera quase saudosista desta confeitaria, que no decorrer dos anos foi se moldando às muitas marcas externas, porém perder a sua essencialidade, uma identidade que é sentida quando colocamos os pés no seu território.

Certamente é uma grande emoção estar na Colombo, poder viver histórias, estilos e tendências, que estão impregnadas nas paredes, no chão, nas bandejas, na louça branca e verde com frisos dourados; louças que identificam este lugar. Porque a Colombo não e apenas um lugar de comer e de beber, é um lugar para se fazer conexões conforme as histórias de cada um, de cada comensal.

Trago tudo isto com muita intimidade com a Colombo, pois pude viver tantas experiências neste lugar, creio, desde o início dos anos 1970, frequentava com regularidade, com um certo deslumbramento; e ainda aprofundava minha amizade com os garçons, alguns garçons portugueses, que eu já conhecia pelo nome; e assim estabeleci muitas conversas sobre a confeitaria e sobre Portugal.

Sentar-se numa das muitas cadeiras, originalmente, de palinha da Índia, tomar um sorvete de pistache, um waffle com mel, ou mesmo as famosas torradas Petrópolis, é comer e beber esta confeitaria, numa verdadeira viagem nos costumes do Rio de Janeiro, de uma charmosa vida carioca.

O vatapá da Confeitaria Colombo - foto Jorge Sabino
O vatapá da Confeitaria Colombo – foto Jorge Sabino

Quero destacar o cardápio do Colombo, sempre amplo e variado, tão variado que às sextas-feiras era servido um vatapá como prato do dia.

Sim, um vatapá bem tradicional que era acompanhado de, imaginem: acaçá feito com farinha de arroz, fabricada pela própria confeitaria, entre os muitos produtos comercializados com o selo Confeitaria Colombo. Era um vatapá com sabor afro-baiano, e com uma assinatura desta confeitaria, servido com uma deliciosa posta de peixe frito.

E assim era o vatapá da Colombo, eu tive a oportunidade de viver intensamente estas sextas-feiras, foram muitos almoços que se ampliavam além da nutrição, eram verdadeiras celebrações por poder levar à boca o sabor de dendê, num contexto à francesa, num ambiente que trazia os grandes símbolos da Europa.

Além disso, pode-se acrescentar ao amplo e rico cardápio da Confeitaria Colombo a língua defumada, e muitos tipos de folhados, de empadas, de pastéis, de biscoitos; também o cajuzinho, feito com massa de amendoim e moldado manualmente para lembrar um cajuzinho.

Destaque para o pastel de nata, doce muito associado à cidade de Lisboa, especialmente ao bairro de Belém, provavelmente o lugar em que se criou este doce que é servido tradicionalmente polvilhado de canela; e o jesuíta, outro celebre doce português, entre tantos outros. Então, podia-se comer tantos lugares, tantos estilos e tantas tendências gastronômicas. Certamente um bom lugar para se viver e construir memórias, experiências emocionalmente únicas.

 

 

RAUL LODY

 

Confeitaria Colombo

Rua Gonçalves Dias 32, Rio de Janeiro, RJ, 20050-030

 

 

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