Comer, exibir comidas, ostentar mesas e banquetes, olhar para a biodiversidade, respeitar os ingredientes, promover a comensalidade, ter um comportamento slow, valorizar as comidas de “verdade” são alguns dos temas dominantes nesse amplo e complexo mercado da gastronomia.

A comida é o elo mais midiático do momento, e um dos caminhos preferidos pela comunicação nos cenários da globalização, enquanto, ao mesmo tempo, os movimentos sociais ligados à patrimonialização olham de maneira diferente para este tema.

A comida está envolvida num mercado cada vez mais midiático, mais espetacular. Programas de tv aonde pode acontecer de tudo, estripar um bode, selecionar ovas de peixe, desossar uma galinha, executar técnicas culinárias complexas. O espetáculo do preparo é mais importante do que a comida; e assim acontece o show do “Gastroego”.

A comida, sem dúvida, tornou-se um forte argumento para inclusão de pessoas na mídia de forma imediata.  Assim, a comida passa a ser um tipo de recuperação de imagem ou de reinserção midiática. Por exemplo, uma atriz da televisão que está no armário da fama inventa um livro de receitas e pronto, e quase magicamente ela recupera a sua fama com os entediantes programas do tipo “lar doce lar”.

 

Foto de Jorge Sabino

 

Todas estas questões sobre comida e fama na mídia certamente marcam os movimentos planetários sobre ingredientes, biodiversidade, fast food, patrimônios alimentares; entre tantos temas que assumem amplos e ricos significados nos olhares sobre alimentação e sociedade. E assim, as muitas mídias fazem os melhores palcos para a dramaturgia da comida enquanto tema de interesse geral.

Comida e dieta ganham na mídia dimensões privilegiadas nas suas relações com os mercados de consumo, de moda, de comportamento, de saúde; onde a maneira de se relacionar com a comida vai muito além da ingestão dos ingredientes, da sensação dos sabores. A comida é uma forma de argumentação para manifestar desejos.

Cada nominação dada a uma comida, e que se relaciona com estilo ou modo de consumo, mostra também um conceito sobre a pessoa e a sua alimentação, mostra o seu comportamento e os seus hábitos alimentares.

Nestes palcos sociais, alguns ingerem carboidrato; outros comem raízes de mandioca, e a partir daí se pode entender como as pessoas se relacionam com o que come e porquê.

A atualidade dos contextos sociais torna a comida, e tudo que ela representa, um tema fundamental para este crescente circus aonde existem jogos de ludicidade, de humor, de drama; e até de receitas e processos culinários. O nosso século XXI marca esse verdadeiro circus de alimentos e pessoas.  A comida é a coadjuvante da cena, e o que importa é destacar o chef e a sua performance.

Os espetáculos diante de uma panela são previsíveis, há uma espécie de repetição de uma fórmula já cansada, diria já exaurida das apresentações num formato talk show. É muito chefe para pouca panela.

Diante de todos esses cenários sociais, e de espetáculos nas cozinhas, vejo que o que realmente vale e importa é se a comida é boa.

 

 

Raul Lody

Recife, 1 de setembro de 2017