O livre pensar sobre a comida e a alimentação

Tag: corona vírus

Internet: o novo convidado da comensalidade num mundo isolado

Os novos contextos mundiais, que trazem o isolamento, têm transformado as relações sociais, onde há uma busca por referências e alternativas para se adaptar e viver neste mundo que se apresenta num drama globalizado.

Estes contextos de bases sociais e econômicas, que são marcados pelas desigualdades, também apontam para um amplo e urgente repensar sobre a comida, seus meios produção e seus meios de aquisição.

Todas estas questões fazem parte do grande mercado da alimentação, desde a seleção de ingredientes até o que comer e como comer. São ações agora observadas com um olhar especial pelos consumidores em virtude do isolamento social de boa parcela do mundo, onde há um crescente resgate das memórias culinárias familiares.

A obtenção do alimento para as nossas casas traz, sem dúvida, uma reflexão, uma verdadeira revalorização de cada ingrediente, e, consequentemente, um olhar diferenciado para a comida. Ainda, a comida, dentro de cada cultura, assume uma marca de identidade e de pertencimento, porém nestes novos contextos temos muitas mudanças simbólicas nas interações entre a pessoa e a comida.

O isolamento social passa a ser uma mudança de comportamento que apesar de se apresentar de diferentes aspectos, ele atua de forma decisiva nos rituais de comensalidade e no ato de comer, e promove novas comensalidades.

Brasil Bom de Boca corona virus

Foto de Jorge Sabino

Comer em grupo, em celebrações familiares, em celebrações religiosas; entre tantas outras formas que revelam alteridade e soberania alimentar, começa a passar por grandes mudanças. Assim, esta condição emergencial de isolamento interfere diretamente no ato social da alimentação.

São mudanças no ato de comer; nos rituais à mesa, e em outros locais como feiras, mercados, templos, ruas; entre tantas outras formas para se viver simbolicamente aquilo que se come. E tudo isto, com certeza, atuará de forma múltipla dentro das relações sociais e, em especial, nas sociabilidades feitas à mesa.

Por tudo isso, o isolamento social rapidamente tem feito com que as formas de se relacionar com a comida tenham se adaptado, desde o contato com o ingrediente que mudou, seja pelas medidas higiênicas que temos que ter com cada produto até o modo como proceder ao consumir comida pronta na rua.

Comer vai muito além do nutrir. Deste modo, como fazer um brinde sem o outro. Como servir uma comida. Como oferecer o primeiro pedaço de bolo para a pessoa mais querida. É com estas perguntas que o isolamento social marca as distâncias e os lugares sociais das pessoas.

Assim, é crescente não só uma atitude de sobrevivência, que é marcada pelo sentido funcional da alimentação, mas também pelo ato de comer que é ressignificado no seu sentido simbólico, estético e criativo.

No isolamento social, a presença concreta da pessoa está sendo substituída pela sua imagem na tela, seja de computador ou celular, que passa a representar um novo tipo de convívio, que se antes era uma opção pelo mundo virtual, agora se torna cada vez mais obrigatório.

Agora o outro está na tela, ele chega pela internet para participar dos rituais de comensalidade, seja um cafezinho, ou mesmo um aniversário, onde se cantam os parabéns, e a interação se dá através de beijos e abraços virtuais; e, ainda se come o bolo de forma virtual. Assim, pela internet, também se vive uma nova alimentação virtual, uma nova maneira para se manter a comensalidade e as relações sociais.

Raul Lody

O medo está servido

Como sabemos, vamos à mesa para comer, para nos reunir, para nos encontrar, para nos relacionar; para celebrar, para socializar, para marcar diversos rituais sociais. Assim, comer não é apenas se nutrir.

Sabemos que a mesa é um lugar importante, um território de vida e de civilização. Então, estar à mesa é estar com o mundo ali representado, como se uma história fosse contada pelos ingredientes, pelas técnicas culinárias, pelos símbolos da cultura daquela comida que é servida.

Cada comida tem uma identidade, uma estética própria. Tudo está integrado ao sentido pleno da alimentação, que transcende o simples hábito de comer. E nesta relação entre a pessoa e a comida, faz-se contato com a memória pessoal que dialoga com as memórias ancestrais, que juntas trazem o sentido verdadeiro da alimentação e do pertencimento.

Desta maneira, pode-se viver diferentes aspectos que fazem parte do ato alimentar, que une os ingredientes às representações simbólicas. E estes processos são atestadores dos povos, e das suas peculiaridades.

Brasil Bom de Boca corona vírus na mesa

Foto de Jorge Sabino

Porém, hoje, de maneira violenta, nos encontramos em novos e conflitantes momentos de ruptura, de transgressão dos hábitos alimentares, por causa de uma verdadeira “guerra biológica” que toca na integridade das pessoas, das suas famílias, dos seus grupos e das suas comunidades.

Essa violência afeta a diversa cadeia produtiva da comida, que envolve milhares de brasileiros. Inicialmente no campo e, em especial, na agricultura familiar, na pesca artesanal, nos mercados e feiras populares, onde estão localizados inúmeros profissionais que garantem a existência das cozinhas.

Ainda, os ofícios de cozinheiro, auxiliar de cozinha, garçons, copeiros, chefes, e demais profissionais que fazem nascer a comida na sua diversidade e intensidade cultural.

Desse modo, temos uma interrupção ao acesso a todos os rituais de comensalidade, enquanto formas de expressão individual; e de expressão coletiva que transita pelo sagrado, e pela busca da alteridade, pois, a comida, aliada à identidade, faz a verdadeira ação da alimentação.

No entanto, nos vemos na fronteira de uma busca apenas pela necessidade de nos nutrirmos para sobreviver, pois o medo assume um sentido dominante diante da refeição que é servida à mesa. Assim, passamos por um verdadeiro processo de desumanização da comida.

Raul Lody