100 anos do Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre por um Nordeste nordestino

O meu olhar e o meu sentimento envolvem questões pessoais e profissionais sobre Pernambuco, local e foco preferencial de Gilberto Freyre para interpretar o Nordeste numa espécie de depoimento amplo e complexo em que ele vê e valoriza a sua Região.

Quando Gilberto participa do Congresso Regionalista no Recife, com 25 anos de idade, quando havia chegado de uma longa viagem com 6 anos de duração, que se deu pelos Estados Unidos e pela Europa. E ele traz certamente um acervo de questões, de pensamentos teóricos, de maneiras amplas para entender o mundo ocidental, numa das décadas mais fulgurantes da história que é a década de 1920.

Assim, diferentes construções nos campos da sociologia, da antropologia; campos ungidos pela arte, foco da sua tese em Baylor, onde Gilberto ao abordar o Nordeste patriarcal açucareiro, inclui muitas questões do cotidiano, dos ambientes das casas, dos objetos, das relações sociais e das questões de gênero, que estão marcadas nas expressões visuais, nas roupas, nos móveis, nas porcelanas, nos cristais; e em muitos utensílios vindos do Oriente e que são misturados aos utensílios de barro, de madeira e de fibra feitos na Região.

Gilberto enfatiza questões como se unir de maneira corporal e íntima com o sagrado, traz também questões significativas sobre os espaços arquitetônicos, destacadamente marcar lugares da multiculturalidade, valorizar o homem lusitano que aproximou, sem dúvida, nas Grandes Navegações o Oriente do Ocidente.

Todos esses fundamentos conceituais perpassam pela obra de Gilberto, uma obra inaugural à época, mas ainda especialmente atual, contemporânea, com temas que agora no século XXI são retomados com as questões patrimoniais, para o maior é melhor entendimento dos povos.

Para este Manifesto Regionalista que completa 100 anos em 2026, é muito importante trazer estes aspectos formadores do pensamento Freyriano, porque verdadeiramente a obra de Gilberto é uma obra de continuidade, de reflexões que se interpenetram em tantas páginas, e em tantos livros.

Neste ambiente tão rico que celebra a vida regional do Nordeste, eu quero destacar que além de leitor assíduo da obra de Gilberto, tive enorme prazer de conviver com ele por 11 anos, com muitas conversas, muitas risadas, tanto na sala da presidência do instituto Joaquim Nabuco, quanto na sua casa em Apipucos, aprofundamos as relações de afeto, de respeito e de consideração, e principalmente de aprendizado plural sobre a região, sobre o Nordeste.

Nordeste, ou melhor Pernambuco, uma paixão que eu exponho para Gilberto, e ele celebra comigo, amplia, fortalece, traz lugares, pessoas, festas, comidas, devoções, e paisagens sociais.

Faço esta rápida introdução para poder trazer os diversos temas e questões fundamentais para o entendimento do Nordeste, marcado e plantado no Manifesto Regionalista de 1926.

Gilberto traz no Manifesto Regionalista as suas experiências pessoais, o desejo de trazer novas formas de preservação, e principalmente de socializar as expressões mais telúricas da região, por meio da arte popular; por meio dos cardápios das comidas do cotidiano e das festas; maneira muito avançada para a época de entender os patrimônios culturais, que já previam, então alguns anos mais tarde, o seu clássico para também celebrar a região que é Casa Grande & Senzala (1933).

Casa Grande & Senzala é outra obra profundamente integrada à construção do seu pensamento regionalista do livro Nordeste, culturalmente Nordeste ampliando de maneira contundente com questões sobre o meio ambiente, questões sobre manejo deste meio ambiente, sendo sem dúvida também um prolongamento do seu Manifesto Regionalista de 1926.

 

“Pois o Brasil é isto: combinação, fusão, mistura. E o Nordeste, talvez a principal bacia em que se vêm processando essa fusão, essa mistura de sangue e valores, que ainda fervem: portugueses, indígenas, espanhóis, franceses, africanos, holandeses, judeus, ingleses, alemães, italianos.” (Manifesto Regionalista)

 

Embora muito regional nessas questões sobre o homem situado no Trópico, como sempre dizia Gilberto, ele quer mostrar também maneiras criativas de viver, de construir identidades, das muitas experiências possíveis que a região pode oferecer; e assim fortalecer memórias, e construir novas memórias, neste ambiente de multiculturalidade, de multietnicidade; ainda mostrar processos de permanências e de transformações marcadas pela história, e certamente um entendimento ampliado de tantos e diferentes “nordestes” neste olhar centrado, pernambucanamente centrado de Gilberto.

Um Nordeste em processo, um Nordeste que para Gilberto é a base da nacionalidade de um Brasil verdadeiramente brasileiro. Contudo, Gilberto é afirmativo nas múltiplas relações sociais transatlânticas, especialmente ibéricas, portuguesas.

Em Gilberto Freyre, entre as suas muitas maneiras de interpretar e de trazer as relações sociais e culturais sobre o Nordeste, manifesta um olhar preferencial nos hábitos alimentares, nas comidas, e tudo o que as comidas podem mostrar e revelar sobre o homem, sobre o seu ambiente, sobre a sua história.

 

“Todas as tradições de mesa e sobremesa de Portugal – a cristão, a pagã, a moura, a israelita, a palaciana, a burguesa, a camponesa, a monástica ou fradesca, a freirática – transmitiu-as de algum modo Portugal ao Brasil (…).” (Manifesto Regionalista)

 

E nestes contextos, sem dúvida, é importante privilegiar o açúcar, não só enquanto um componente alimentar, mas enquanto um componente formador da sociedade, formador do caráter, e dos demais aspectos que marcam uma verdadeira civilização. E Gilberto soube muito bem organizar estes princípios no seu livro Açúcar, uma outra ode de valorização do Nordeste.

Quero reforçar colocações anteriores, onde busco trazer os grandes fundamentos da obra de Gilberto que estão associados é este olhar tão múltiplo, complexo e diverso que ele devota ao Manifesto Regionalista. Quero dizer que é permanente o sentimento e o entendimento de Gilberto sobre a região, a partir de Pernambuco, no seu Manifesto Regionalista, que está presente em toda a sua obra.

 

“(…) foi se mantendo a tradição vinda de Portugal, de muito quitute mourisco ou africano: o alfenim, o alféloa, o cuscuz, por exemplo. Foram eles se conservando nos tabuleiros ao lado dos brasileirismos: as cocadas – talvez adaptação de doce indiano, as castanhas de caju confeitadas, as rapaduras, os doces secos de caju, o bolo de goma, o munguzá, a pamonha servida em palha de milho, a tapioca seca e molhada, vendida em folha de bananeira, a farinha de castanha em cartuxo, o manué.” (Manifesto Regionalista)

 

Gilberto busca e acrescenta sempre os processos sociais e culturais, não é xenófobo, nem regionalista no sentido “memorialista”, ele vê, entende e expõe, dinâmicas culturais, quando, por exemplo, a farinha de trigo é trocada pela massa de carimã, produto da mandioca nativa, sul-americana, brasileira. E assim celebra a criação regional, celebra uma região que vai construindo suas identidades nos processos econômicos de sustentabilidade, de manifestar direitos que fazem a soberania alimentar.

Está na comida, e tudo ao seu redor de bases ambientais, etnoculturais uma das mais significativas afirmações de um Nordeste nordestino, único nessa busca permanente de Gilberto no seu Manifesto Regionalista.

Tudo isso, une-se ao entendimento de Gilberto sobre lugar geográfico, sobre um chão de tantas construções simbólicas que se afirmam no exercício de viver suas identidades nas comidas, nas casas, nos templos, nas ruas, nas festas populares; e nos muitos objetos de criação popular, e de um cotidiano integrado aos mais diversos fatores tropicalmente ecoculturais.

Esses sentimentos e estas colocações feitas por Gilberto também expõem os movimentos internacionais que buscam um novo entendimento dos lugares, não apenas enquanto um lugar geográfico, mas principalmente enquanto ambientes de manifestações de identidade, de profunda alteridade.

O mundo à época, década de 1920, após a 1ª Grande Guerra Mundial, arrumava-se em novos países, revia os entendimentos das fronteiras, das marcas políticas, muitas vezes em detrimento das marcas culturais, das etnias, dos longos processos históricos.

E deste Mundo Gilberto experimentou, viveu nos Estados Unidos: Texas; na Europa: França, Alemanha, Inglaterra. E nestes contextos, novamente destacar os movimentos artísticos, e assim quero trazer uma larga e complexa busca pelas artes étnicas do continente africano, da Ásia, e de outros lugares do mundo. Esta busca aponta para entendimentos patrimoniais, de expressões locais, resultados de longos processos simbolizadores, funcionais, referências dos povos, verdadeiras atestações das suas múltiplas identidades.

Gilberto vê e traz nas artes das comidas, dos objetos, das artes das festas, da religiosidade, as conexões do mundo que se redescobre e se autentica nestas buscas pelas diferenças, que fortalece os seus sentimentos por um Nordeste nordestino.

 

“Congresso [Regionalista] estaria em procurar reanimar não só a arte arcaica dos quitutes finos e caros em que se esmeraram, nas velhas casas patriarcais, (…) como a arte – popular – como a do barro, a do cesto, a da palha do Ouricuri, a dos cachimbos e dos santos de pau, a das esteiras, a dos ex-votos, a das redes, a das rendas e bicos, a dos brinquedos de meninos feitos dos sabugos de milho, de canudos de mamão, de lata de doce de goiaba, de quengo de coco, de cabaça (…)”. (Manifesto Regionalista)

 

Um movimento de valorização da região, de um Nordeste com tantos acervos que afirmam as suas peculiaridades, seus entendimentos patrimoniais, permanentemente redescobertos, ou mesmo descobertos, e Gilberto alerta, estabelece críticas, mostra potencialidades, tudo isto há um século.

Outro significativo ponto real do Manifesto Regionalista trata dos museus, enquanto instituições idealizadas para mostrar a diversidade e não apenas reificar o poder vigente. Gilberto é avançado e propõe museus mais democráticos, mais próximos das muitas representações populares. Ele mostra ainda um olhar tão contemporâneo pelo que se entende por museus enquanto testemunhos da diversidade humana e não apenas do patrimônio de pedra e cal.

O que Gilberto propõe há um século sobre os museus e seus acervos é o foco contemporâneo orientador de políticas nacionais e internacionais sobre a abrangência social e cultural dos museus.

 

“Desejar um museu regional cheio de recordações das produções e dos trabalhos da região e não apenas de antiguidades ociosamente burguesas como joias de baronesas e bengalas de gamenhos do tempo de Império. (…)
Querer museus com panelas de barro, facas de ponta, cachimbos de matutos, sandálias de sertanejos, miniaturas de almanjarras, figuras de cerâmica, bonecas de pano, carros-de-boi, e não apenas com relíquias de heróis de guerras e mártires de revoluções gloriosas.” (Manifesto Regionalista)

 

Além dos espaços convencionais dos museus, Gilberto traz um olhar ecomuseológico para as culturas tradicionais, sendo atual, consoante as políticas mais avançadas neste campo dos patrimônios culturais.

 

“Exaltar bumbas-meu-boi, maracatus, mamulengos, pastoris, e clubes populares de carnaval (…)”. (Manifesto Regionalista)

 

Sem dúvida é forte e é continuado esse processo de construção de um Nordeste nordestino por meio dos seus patrimônios culturais, sem hierarquizá-los, trazê-los para a vida cotidiana, e não apenas patrimônio como uma forma de apreciação, mas enquanto forma de uma interatividade profunda, e que toque na diversidade e na pluralidade de tantos e diferentes nordestes. Há ainda neste Manifesto, declaradamente, uma ênfase para as características mais profundas da multiculturalidade.

 

“Ao velho Recife os gênios dos mouros, mestres em tanta coisa, (…) que vê em tudo que é herança portuguesa um mal a ser desprezado, que vê em tudo que é antigo ou oriental um arcaísmo a ser abandonado.” (Manifesto Regionalista)

 

Quero ainda declarar que neste Manifesto de Gilberto há também um entendimento amadurecido sobre o clima e a região, quando este entendimento retomado, e muitos outros estudos, tem como protagonista o Sol, o Sol tropical, no caso, o Sol do Recife.

 

“Mestras de higiene tropical são também as mulheres do povo que andam pelas ruas e estradas ao sol do meio-dia protegidas contra esse sol excessivo por xales, mantilhas, panos da Costa, atirados elegante e liturgicamente sobre a cabeça e os ombros de dez ou vinte formas diversas que merecem um estudo, tanto é o que podem revelar sobres as culturas orientais e africanas que se transferiram para o Brasil (…).” (Manifesto Regionalista)

 

Outra questão fundante neste Manifesto é a franca e aberta humanização da cultura feita por Gilberto, uma marca constante em toda a sua obra, e que assim nesta construção vai revelar a identificação com seu lugar, um tema em constante descoberta, e que fortalece a sua voz recifense.

 

“De modo que, no Nordeste, quem se aproxima do povo desce a raízes e a fontes de vida, de cultura e de artes regionais. Quem se chega ao povo está entre mestres e se torna aprendiz (…).” (Manifesto Regionalista)

 

RAUL LODY

BrBdeB

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