Há uma grande tendência na valorização, diria numa exagerada valorização, das comidas tidas e interpretadas como comidas memoriais, emocionais, e que remetem às relações familiares, às relações pessoais especialmente com os avós, com os pais, entre outros.
Assim, chegam muitas referências pessoais, principalmente simbolizadas por sentimentos subjetivos diante de certas comidas que fazem parte de um condicionamento alimentar predominantemente ligado à casa, à família, quase amoroso. Muitos chamam estas comidas de comida afetivas.
Nestes cenários em que se une o sabor com a emoção, há uma crescente valorização para as comidas simbolizadas com marcas pessoais, e que passa a ser uma verdadeira fonte de doação de amorosidade.
As memórias são capazes de guardar, elaborar, ressignificar; e ainda idealizar, conforme a funcionalidade de cada fato ou informação; e, no caso de um sabor, de um odor, de uma cor; e, em especial, de uma comida que faz parte dos rituais de fortalecimento de laços afetivos.
Sabe-se que a comida não carrega só afeto, também carrega as possibilidades econômicas, que são visíveis no ato do máximo aproveitamento de ingredientes, onde se fazem adaptações de receitas, reinvenções e mesmo criações. Tudo isso mostra que as possibilidades de cada comida estão integradas aos seus ambientes sociais, onde estão representadas nas escolhas alimentares, no entendimento das tradições que fazem parte do amplo e complexo do ato de comer.
Destaco que a funcionalidade dos ingredientes, e suas inclusões nas receitas, para tocar num entendimento cotidiano de sustentabilidade, diga-se sustentabilidade para poder garantir as três refeições diárias, os recursos do terroir e outras questões estão dentro da construção do entendimento de comida de afeto.
Porque a comida de afeto, comida afetiva ou cozinha afetiva nasce da comida possível, certamente oferecida em diferentes rituais sociais na trajetória da pessoa na sua sociedade. E cada comida terá sempre diferentes significados para cada pessoa, e assim também trará simbolizações diferentes, que passaram a fazer parte de um ato memorial da história da pessoa.
Certamente, o ato de se alimentar é um ato fundamental e repleto de significados conforme as culturas e os povos, onde se ampliam as redes de afeto condicionando as comidas, e se criam as experiências alimentares pessoais.
Destaco que todas estas questões, nem sempre se aliam aos princípios da segurança alimentar e da soberania alimentar, pois as representações do que comer e porque comer é determinado no contexto do que é escolhido por questões socioculturais.
Nestes cenários sociais, o entendimento de segurança alimentar reúne muitos fatores que estão ligados às questões econômicas, que verdadeiramente orientam e indicam as possibilidades de acesso e uso dos ingredientes, e assim poder realizar receitas. Este fator econômico é orientador das escolhas e das possibilidades alimentares, e não está separado do imaginário das comidas de afeto.
Sem dúvida, os fatores contextuais de uma receita são tão determinantes como as indicações das quantidades dos ingredientes e do modo de fazer. A receita é um texto social, econômico, ecológico, que traz muitas simbolizações e marcas autorais. E nestas marcas autorais estão as marcas do afeto, da amorosidade, que faz parte do ato imemorial que é o de dar de comer.
Alimentar-se é um ritual complexo, e um ato que ganha maior relevância quando representada pela cultura. Por exemplo, na amamentação, o leite materno é o primeiro alimento fundador das relações de afeto. Assim, vê-se a alimentação enquanto uma forma de doação, de permitir o acesso à vida, de fundamentar os princípios das relações socioculturais. E estes muitos e diversos processos de valorização da alimentação nos mercados de consumo tem ganhado muitas interpretações que buscam o fortalecimento dessa tendência chamada de comida afetiva.
Assim, busca-se nos restaurantes, e noutros lugares de consumo de comidas, as receitas reveladoras de relações de afeto, além de dar também um contorno no mercado para as comidas infantis que são vendidas como “caseiras” para atraírem o consumidor.
A comida com afeto traz no seu entendimento básico a busca para o reencontro das memórias familiares por meio dos sabores, e os cardápios são voltados para um imaginário daquelas comidas que se conectam com as histórias, sejam particulares ou coletivas; ou que estão marcadas por momentos sociais reveladores como os ritos de passagem, por exemplo, os aniversários, batizados, casamentos, entre outros.
A comida com afeto traz, sem dúvida, afeto, porém ela traz também as questões socioeconômicas, ecológicas, culturais e simbólicas da alimentação, e todos estes contextos sociais fazem parte da receita, e serão também servidos no prato.
RAUL LODY
