A festa de louvar, de comer e de beber
“Aqui vos espera,
O Senhor das gentes,
Correi pastorinhas,
Alegres, contentes”.
(Poesia popular)
As nossas festas populares são muitas e diversas, e, na sua maioria, são marcadas por uma devoção que promove a fé, e traz temas de um catolicismo que integra outras formas expressivas de devoção de outros sistemas sagrados, como acontece com as religiões afro-diaspórico.
E assim, misturam-se os desejos e os motivos para realizar e viver cada festa dentro da sua devoção, celebração, pagamento de promessa; expressão criativa e autoral, ludicidade, sociabilidade; sempre em ambientes repletos de comidas e bebidas que marcam e identificam cada maneira e estilo de festejar.
Nesses ambientes das festas populares e tradicionais, pode-se entender que viver a festa é quase o mesmo que viver as comidas e as bebidas, especialmente preparadas, que identificam cada ritual social coletivo no ato do festejar.
Nas muitas e diferentes datas que marcam a preparação e a realização das festas populares, nós encontramos dentro do caráter nacional brasileiro manifestações de diferentes aspectos regionais, que atestam e identificam diferentes bases e matrizes etnoculturais.
Por exemplo, o ciclo natalino reúne celebrações com diferentes maneiras de festejar por meio de músicas, danças, indumentárias, representações teatrais; cortejos, artesanato, cardápios de comidas e de bebidas; tudo agregado a esse tempo que é marcado por uma forte religiosidade que se manifesta nas maneiras de interpretar aquilo que chamamos de catolicismo popular. Este ciclo natalino estende-se regionalmente até o dia dos Santos Reis, 6 janeiro, e/ou ainda até o dia de São Sebastião, 20 de janeiro.
“Encontrando-as (as pastoras), me pediram,
Que lhes ensinassem o caminho.
Para irem a Belém.
Visitar o Deus Menino”.
(Poesia popular)
Entre as muitas manifestações tradicionais e populares repletas de religiosidade à moda dos que fazem as festas, destaco os autos, expressões coletivas e teatrais. Estes autos são verdadeiras manifestações do teatro musical popular, com um amplo e rico acervo de poesias, de textos dramáticos, de coreografias, de música vocal e de música instrumental, sobre os diferentes relatos do nascimento do Menino Deus.
Destaque para as muitas narrativas das viagens até Belém, que inclui muitas vezes a presença dos 3 reis magos, dos pastores, dos anjos e de outros personagens que identificam a regionalização dessas formas de manifestar religiosidade popular.
Entre as muitas maneiras de organizar as peças teatrais populares e tradicionais trago os autos pastoris, cujas bases históricas e culturais chegam da península ibérica, Portugal e Espanha, do teatro popular integrado à Igreja. E assim, cada grupo vem contar, anualmente nos palcos, tablados, em praças públicas, diante das igrejas, das comunidades, das famílias, os enredos dos campos, do pastoreio, da vida rural, integrado as muitas maneiras de celebrar o Natal por meio de apresentações que senguem até o dia dos Santos Reis.
“Correi, vinde todos,
Cheios de alegria,
Ver o Deus Menino,
E a Virgem Maria”.
(Poesia popular)
Nesses ambientes das tradições populares, eu quero trazer o depoimento das histórias que eu sempre ouvi contar, no lado da minha família materna, sobre o grande presépio armado na enorme varanda da fazenda Nossa Senhora da Conceição, no Rio de Janeiro, no que é hoje conhecido como o bairro de Olaria e Ramos. Tão grande era esse presépio, que começava a ser organizado, com a participação de todos já em outubro para ser inaugurado em dezembro, e ficar armado para visitação até o mês de janeiro, culminando no dia 6, o dia dedicado aos Santos Reis.

Durante todo esse período, havia visitas de grupos de música e dança populares e tradicionais da região. E destaque para as visitas das pastoras, personagens dos autos que falam sobre o nascimento do Menino Deus. Essas apresentações se davam diante do presépio. E como uma forma de agradecimento e do bem receber, após cada apresentação das pastoras eram servidos rabanadas e vinho do Porto tinto, vinho português.
“Ao dono da casa,
Um brinde ofertamos,
E à sua saúde,
Os copos viremos”.
(Poesia popular)
Ainda, desta região do Rio de Janeiro, há os cortejos das Folias de Reis, grupos tradicionalmente masculinos que visitavam as casas e os presépios, e que se apresentam até o dia de São Sebastião. São cortejos devocionais, muitas vezes para o pagamento de promessas, além de outros vínculos devocionais estabelecidos entre os participantes desses grupos com o Menino Deus e os Santos Reis.
E para manter a tradição, após as apresentações sempre eram servidas comidas e bebidas, especialmente uma boa cachaça, bebida muito apreciada pelos participantes das Folias de Reis, e esta bebida marca também um aspecto masculino da cachaça como uma bebida historicamente destinada para os homens.
“Meu menino pequenino
Só peço é que, no vosso dia
Me dê um bom copo de aguardente”.
(Poesia popular)
Ainda, há outras manifestações do teatro popular e tradicional que ocorrem no Recôncavo da Bahia, como, por exemplo, os Bailes Pastoris, um amplo e rico conjunto de peças teatrais, com indumentárias, cenários, músicas, danças, que têm como tema central o nascimento do Menino Deus e a celebração da chegada dos 3 Reis Magos. Isso faz com que estes grupos de teatro popular exibam muitas e diferentes peças teatrais até o dia 6 de janeiro, dia dos Santos Reis.
Como é tradicional nessas festas, e em outras manifestações de religiosidade popular, após as apresentações todos vivem rituais de comensalidade e de sociabilidade, com partilha de comida e bebida; e, geralmente, em função desta época, há um cardápio formado por fatias douradas – rabanadas –; mungunzá de milho branco, arroz doce e licores; e outros oferecimentos.
Entre os muitos enredos e relatos do teatro do Baile Pastoril, encontramos muitas citações e referências às comidas e bebidas.
“Venha porco assado,
Ou mesmo leitão
Que nós aceitamos
De bom coração
Pode vir champanha
E algum moscatel
Que sabem na goela
Melhor do que mel
Venha porco assado
Ou mesmo peru,
Arroz, vatapá
E algum caruru”
(Poesia popular)
Esses grandes momentos sociais e culturais de reativar memórias pessoais e coletivas dão vida para muitas expressões artísticas teatrais, musicais, artesanais, que estão também integradas às comidas e as bebidas de celebração, num fortalecimento dessa manifestação de religiosidade tradicional e popular.
Assim, sem dúvida, o ciclo natalino traz o dia dos santos Reis no seu mais amplo e diverso sentido de religiosidade, e faz com que vivamos todas essas histórias que referenciam as nossas identidades e os nossos patrimônios culturais de brasileiros.
RAUL LODY
