Os lugares de comer são tantos, muitos, diversos, e marcam, sem dúvida, os lugares de poder viver os diferentes rituais da alimentação entre os homens e entre os homens e os seus deuses.
Assim, sentados sobre folhas de bananeira, ou outras folhas, esteiras de fibras naturais trançadas, tapetes, chãos, cadeiras; ou mesmo em outro tipo de mobília tradicional, vivem-se milenarmente os momentos da alimentação.
São momentos marcados por diferentes temas e significados, que manifestam ritualidades, estabelecem diferentes maneiras de comunicação com cada comida, cada bebida, cada modo de consumir o alimento. Tudo isso sempre unido a um contexto mais amplo e complexo da vida, da sociedade e da cultura.
No mundo ocidental, especialmente numa mancha ideológica judaico-cristã, os lugares das mesas são escolhidos pelas culturas, para poder viver os muitos e diversos rituais de comensalidade.
Certamente à mesa, ao redor da mesa, enquanto um objeto simbólico, e milenarmente marcado para experimentar os rituais das comidas e das bebidas, afirma-se como um lugar consagrado para as sociabilidades. Um lugar para estabelecer hierarquias, marcar poder, experimentar sentimentos religiosos, expressar história; exercitar a sensibilidade diante dos pratos, dos copos, dos talheres, das toalhas, e de tantos outros utensílios ligados ao ritual da alimentação.
É longo e diverso os olhares sobre os caminhos históricos, sociais, econômicos e culturais que circundam as mesas. A mesa não é apenas um suporte, um móvel para servir a comida, ela simboliza encontro, expressa e manifesta diversos entendimentos sobre as hierarquias das pessoas e dos pratos, assim como dos alimentos; marcar a formação de um paladar com os sabores, os cheiros, as formas, as cores, as texturas, as maneiras de viver pertencimento dentro de uma cultura.

Mesa do cotidiano para as comidas do dia a dia; mesa para experimentar as suas escolhas e os seus hábitos alimentares, que são tão diversos e plurais quanto os seus povos e as suas culturas. Mesa que testemunha ritual, que promove diálogo, e tantas outras ações e que integra a maneira de comer de cada um, o comportamento do seu corpo diante do seu prato, mesa que marca soberania alimentar.
Assim, é o lugar que a cultura dá a mesa que indica, faz e promove a relação da pessoa com a comida. Na cultura cada ritual confirma a identidade, o patrimônio; e a sabedoria ancestral, pessoal e coletiva. Tudo isso se experimenta à mesa. E cada mesa é um território, é um lugar marcado pelas diferenças, pelas estéticas, por diversas representações simbólicas.
Ainda, são muitos e diversos os objetos que fazem parte da organização e da simbolização de cada mesa. Inicialmente, ela é marcada pela toalha de mesa, que poderá ser feita de tantos e diferentes materiais, cores, e demais símbolos. Entretanto, as toalhas são tradicionalmente brancas. Na nobreza e no clero as toalhas iam até chão, e tinham grande volume, sendo totalmente brancas para marcar o poder, o poder econômico.
Há uma tradição dentro do imaginário ocidental na qual o branco está aliado ao entendimento cromático de limpeza. Desse modo, circulam guardanapos, toalhas e outros acessórios feitos em diferentes tecidos que são marcadamente brancos, alvíssimo branco, para manifestar os lugares idealizados de limpeza.

Contudo, são tantas e diversas as toalhas, onde cada uma irá marcar uma história, um lugar, um registro social, econômico e cultural; também familiar.
Sem dúvida, há uma grande proximidade e intimidade das pessoas com os seus utensílios domésticos, visto que na sua grande maioria eles acompanham o cotidiano, e integram os diferentes rituais sociais da casa. Além disso, existem certos objetos que ganham um destaque especial, pois passam a ser ritualizados dentro das próprias relações sociais da casa.
Trago como exemplo um conjunto de objetos de mesa que integrou o enxoval de casamento dos meus pais. Refiro-me aos anos 1940, época em que os bons tecidos bordados vinham da Ilha da Madeira, Portugal. E até hoje, eu tento preservar este precioso acervo em linho com diferentes tipos de bordados e cores.
Um verdadeiro patrimônio da casa, um conjunto que traz uma grande toalha de mesa, um jogo americano, base para copos, guardanapos; todos no mais puro linho, e com a cor bege. Estas peças recebem bordados policromados, com temas florais, que mostram a técnica artesanal do bordado em ponto cheio, do crivo, da renda de agulha e do richelieu. É um conjunto verdadeiramente barroco.
Este acervo em tecido foi adquirido diretamente em Portugal, e vale destacar que o artesanato de bordados na Ilha da Madeira foi muito famoso, especialmente no século 19, com relatos de que existiam mais de 60.000 bordadeiras.
Assim, para viver todas estas histórias que trazem beleza à mesa, que trazem memórias familiares, que ampliam as possibilidades de viver imaginários estéticos, que nos aproximam dos nossos gostos e das nossas memórias, é preciso marcar que cada toalha de mesa pode trazer uma relação profunda entre a pessoa e a sua história.
Raul Lody

