Acarajé: uma comida de rua ancestral do Recife

As comidas de rua têm uma forte interação com as pessoas. São muitas as opções para se comer e beber nas ruas, e essas opções irão variar conforme os lugares e as épocas do ano; e estão associadas as questões econômicas, que prevalecerão nas seleções e opções da alimentação.
Certamente, comer é um ato social, um ato repleto de significados, que carrega tanto marcas individuais quanto marcas coletivas, regionais. E a rua mostra que é um grande e diverso território de alimentação. E, sem dúvida, está na rua um dos lugares mais privilegiados para se expressar e comunicar identidade, identidade alimentar.

Trago como estudo de caso, uma das comidas mais notáveis, conhecidas interpretadas com diferentes estilos e formas autorais do fazer, refiro-me ao tão celebrado e já patrimonializado acarajé.

O processo de patrimonialização do acarajé da Bahia, enquanto uma forte referência histórica social e religiosa desta comida, marca um lugar no imaginário das comidas, e as suas relações históricas e idealizadas com o continente africano.

E assim, há uma forte relação e afirmação do acarajé. Entretanto, como conhecemos esteticamente hoje, na forma de um verdadeiro sanduíche, e que é comercializado aos milhares cotidianamente, numa ampla fruição de significados, o acarajé é interpretado de diversas maneiras, pessoais e coletivas.

Há ainda no imaginário do acarajé, este acarajé de tamanho ampliado, a lembrança de um pão de hambúrguer, que é recheado com vatapá, caruru, molho de pimenta, e muito mais ainda. O acarajé é quase sempre combinado com uma garrafa de Coca-Cola, essa bebida continental, e que aliás nasce de uma fruta africana que é a cola, Cola Acuminata, que para o povo do santo no Brasil é o obi. É uma espécie de botânica da família da Mavaceaes, da mesma família do cacau.

Também, neste contexto da morfologia do acarajé, quero destacar os acarajés que compõem os diferentes rituais religiosos do candomblé, e que se integram as festas do orixá Iansã ou Oyá; pois eles são geralmente menores, um pouco maior do que o formato de uma colher de sopa, e são servidos de maneira cerimonial, sem nenhum tipo de recheio; e encontramos acarajés maiores, e alongados, que se colocam nas gamelas com quiabos e temperos do amalá de Xangô.

Ainda, de volta aos acarajés de rua da Bahia, em alguns casos vemos a inclusão de camarão seco e defumado, uma estética dominante em muitos tabuleiros.

Pela notoriedade do acarajé baiano, parece que não existe mais acarajé fora da Bahia, porém digo que existem, e que trazem muitas e fortes referências do outro lado do Atlântico.

Este bolinho feito com feijão fradinho, cebola e sal, e frito no azeite de dendê, que conhecemos pelo nome de acarajé, mostra um recorte etno-histórico do povo ioruba, que consagra essa receita como uma comida de rua muito popular nos seus territórios. Contudo, em muitos povos de outras culturas na África Ocidental, aparecem os mesmos bolinhos com nomes diferentes. São bolinhos fritos em diferentes óleos, como os de amendoim, de milho, e certamente o azeite de dendê.

Todavia, creio que no do acarajé do Brasil faz-se uma conexão com o dendê como uma maneira de ligação histórica, social, cultural e étnica, para fortalecer as relações com o continente africano. Relações que se dão em ambiente de diáspora, onde a identidade e as referências precisam ser reforçadas e reveladas de forma mais próxima a dos territórios originais, ora por aspectos etnográficos, ora por aspectos emocionais e idealizados.

Nestes cenários sociais, quero trazer algumas experiências pessoais vividas no continente africano, exemplarmente no território do Benim, na cidade de Cotonou, no consumo dos acarajés, que aparecem nas ruas no final da tarde, quando são comercializados às dezenas, em bacias de ágata ou em outro suporte. Já estão devidamente fritos, fritos em diferentes óleos, sem recheios ou pimenta, sendo desta forma consumidos por todos.

Destaco que os formatos desses acarás ou acarajés se remetem ao formato de uma colher de sopa, o que marca assim a sua identidade visual. Os acarajés com as suas massas aeradas possibilitam um prazer na hora. Outro aspecto que integra a identidade destes acarás ou acarajés é que são comercializados por mulheres, que usam suas roupas tradicionais e convencionais do cotidiano.

Acarajé - foto Jorge Sabino
Acarajé – foto Jorge Sabino

Retorno ao contexto da nossa afro diáspora, onde acarajé consagrou-se na Bahia, para trazer uma outra manifestação muito tradicional, e diria até muito mais próxima do continente africano do que o acarajé contemporâneo da Bahia, que é o acarajé de rua do Recife.

Comercializado no centro urbano do Recife, em bancas e barracas, vendem-se pequenos acarajés, uns com camarão seco espetado, como se fosse uma assinatura, uma referência de identidade. Esses pequenos acarajés, muito mais próximos dos acarajés africanos, são comercializados em diferentes quantidades. Outro tema que integra a identidade destes acarajés é o óleo da fritura, não são fritos no azeite de dendê, mas em óleo de soja.

Sem dúvida, o Recife é um território tão afrodiaspórico como o território do Salvador, e expõe suas diferentes dinâmicas sociais e culturais relacionadas ao continente africano.

 

RAUL LODY

 

 

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