O veneno no sabor brasileiro

No Brasil, com o aumento do uso indiscriminado de venenos de diferentes tipos, e graus de periculosidade, na produção de alimentos na agricultura, diga-se a agricultura em grande escala, e transgênica, podemos dizer que o brasileiro come, cada vez mais, alimentos envenenados.

Este tema traz em questão a sanidade da produção de alimentos que levamos para as nossas mesas, onde muitos dos sabores experimentados trazem uma verdadeira orgia de agrotóxicos.

Desde 2008, o Brasil ocupa um lugar de destaque no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. São quase 2.200 tipos de venenos que estão nas hortaliças, nos tubérculos, nas frutas, nos cereais; e em tantos outros ingredientes que fazem parte dos nossos hábitos alimentares.

Assim, a nossa dieta alimentar está num crescente processo de envenenamento, que é consumida involuntariamente pelo brasileiro, que passa a consumir até substâncias já proibidas nos países desenvolvidos.
Mesmo com uma intensa mídia sobre a mensagem que “agro é tech” para uma ação valorativa da agricultura brasileira, também podemos afirmar que agro é tóxico.

Nesta dimensão da alimentação, esses venenos estão nas carnes dos animais, e nos seus derivados, já que eles também se alimentam com ração produzida com agrotóxicos, que passam a frequentar as nossas panelas e os nossos pratos.

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva, com o depoimento de Karen Friedrich, afirma que os venenos estão ainda na água, no solo e no ar. E nestes contextos, ampliam-se as formas de poluir os nossos sabores.

Há, desse modo, uma mudança no paladar, importante elemento cultural dos nossos sistemas alimentares que marca o pertencimento, e traz a sua valorização pelos patrimônios alimentares.

Ainda, numa proporção verdadeiramente assustadora, afirma-se que o consumo anual/médio do brasileiro é de 7 litros de agrotóxicos por habitante. E entre eles, destacam-se: carbofurano, diazinona e metamidofós. Após o Brasil, os outros países que mais consomem estes venenos na alimentação humana são, na sequência, Estados Unidos da América, China e Japão.

Os venenos consumidos nas mesas pelos brasileiros são apoiados pelo governo, numa política de isenção de impostos, e diminuição da investigação sobre a sua toxidade.

Muitos dos agrotóxicos que estão nas nossas mesas têm sua procedência nas armas químicas de guerra.
Fritiz Haber (1920) mostra que o veneno Zyklon usado em Auschwitz está também nos agrotóxicos, que consumimos por meio dos alimentos. Neste mercado envenenador as maiores indústrias de agrotóxicos são: Dupont; Basf; Othes; Chem; Bayer.

 

Venenos - Brasil Bom de Boca
Foto Jorge Sabino

 

Nestes cenários do envenenamento massivo, um processo de diferenciação na qualidade dos alimentos está, sem dúvida, nas produções familiares, no âmbito da agricultura artesanal, que manifesta uma outra relação com o solo, com o ar e com a água; consequentemente com uma qualidade diferenciada dos produtos que levaremos para as nossas mesas.

Estes temas que mostram diferentes maneiras de se relacionar com o solo, e a agricultura, integram-se a biodiversidade nos seus processos biológicos, sociais e culturais. É o respeito pelos acervos da natureza, pelas culturas alimentares, pelo processo de descobertas de espécies, isso sim traz uma ampliação para as nossas cozinhas, para as nossas comidas.

Os agrotóxicos atuam diretamente tanto na natureza quanto no homem, e eles atuam na transformação da biodiversidade e das diferentes possibilidades alimentares.

A FAO/ONU realizou recentemente, em 91 países, um estudo sobre a biodiversidade, e sobre os alimentos que chegam destes acervos verdes e naturais, e o estudo constatou, por exemplo, que cerca de 6.000 espécies de plantas cultivadas para a alimentação foram afetadas por causa da poluição, do envenenamento pelos agrotóxicos, do desmatamento, e de outras práticas, e assim restaram para o consumo humano cerca de 200 espécies.

Para muitos profissionais, que atuam nos mercados da produção, da distribuição e do consumo de alimentos, estas questões tão complexas marcam de maneira profunda o que comemos, por isso muitos movimentos internacionais buscam um maior equilíbrio entre a natureza e o homem. E tudo expõe a produção de alimentos e a alimentação dos povos.

Todos estes contextos levam a uma crescente valorização da sanidade dos alimentos, e um crescente sentimento, simbólico e patrimonial, sobre cada alimento. E todas essas questões estão integradas aos grandes temas que o mundo tem discutido sobre o aquecimento global, e seus fenômenos naturais decorrentes.

 

 

RAUL LODY

 

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