Açúcar: o amuleto doce

“Ao comer um doce, além de adoçar a boca, vive-se um sentimento ancestral de trazer ao corpo muitos significados do que é doce”.

 

O sentido da corporalidade, conforme a cultura, também é uma maneira de entender os símbolos, as cores, e os materiais usados em cada sociedade. E muitas das formas de representação que estão no corpo são para alcançar proteção ou manifestar desejo, sejam individuais ou coletivos.

Esse hábito ancestral de ter um corpo protegido revela um modo de reconhecer a possibilidade mítica desse corpo interagir com os deuses e a natureza. Isso, de acordo com os princípios das civilizações, e dos modelos religiosos.
Assim, para marcar os diferentes papéis sociais, as manifestações culturais vão além do corpo, pois elas estão nas roupas, nas joias, nos penteados; e, em tudo que possa comunicar identidade sobre uma pessoa ou grupo. Neste diálogo entre a sociedade e o lugar da pessoa, há essencialmente um sentido de pertencimento. A construção do corpo cultural estabelece conexões com o sagrado, com os ofícios; com as bases socioeconômicas; e tudo isso reunido expressa alteridade.

Nesses cenários históricos, antropológicos, e de muitas linguagens, destaca-se a comida e os ingredientes, que são as expressões mais reveladoras sobre a vida, o cotidiano, a festa, a fé, a arte; e tudo que possa localizar quem é a pessoa.

A comida traz um vasto repertório que une a pessoa ao seu entorno; e as suas características de região, de povo, de civilização, de ancestralidade. Dessa maneira, os usos sociais das receitas manifestam estéticas e significados que buscam um mimetismo com os elementos da natureza.

É complexa e diversa a interpretação sobre a construção das comidas e das bebidas; pois o uso de uma folha, de uma flor, de uma cor, de um ingrediente, que estão nos hábitos alimentares, pode auferir diferentes significados, que vão além da função original de nutrir, ou apenas de formar uma identidade alimentar. Sempre, há um sentido dominante de se contactar com aquilo que é mágico na comida ou no ingrediente, contactar-se com o poder da natureza.

Através da comida são feitas correlações com um estilo de vida que busca um reconhecimento do que é sagrado dentro das suas devoções pessoais.

Todos os atos simbólicos que são feitos através da comida, sejam do oferecimento ou do consumo, atribuem valores materiais que se relacionam diretamente com o corpo, e que têm a função de resguardar este corpo. E para realizar esses desejos de proteção, são eleitos amuletos corporais. Amuletos que trazem memórias ancestrais, e tem o seu papel funcional reconhecido na cultura.

Um caso exemplar para o entendimento simbólico do amuleto é o sabor doce, e as suas múltiplas possibilidades funcionais e rituais na vida, pois os preparos culinários que utilizam o açúcar sempre tiveram usos e funções alimentares agregadas às atribuições simbólicas, e mágicas.

Assim, a função de um ingrediente doce, quando sacralizado conforme o ritual de uma tradição cultural, passará a transmitir sua doçura, numa linguagem mimética, não só para o corpo, mas também para toda a ação simbólica ao qual aquele doce está relacionado.

Por exemplo, no Ano Novo judaico, leva-se à mesa a maçã e o mel, ingredientes que comunicam o mito da criação e da doçura da natureza, que fazem um texto ritual sobre se alimentar com coisas doces, para que o ano que se inicia seja da mesma forma doce. Há uma atribuição mágica para o ingrediente, e a sua inclusão no sistema religioso passa a estabelecer um diálogo com o sagrado. Pode-se dizer que, este ritual à mesa dá um sentido coletivo ao amuleto doce por meio desta celebração.

Outro caso é o lugar mágico do doce na tradição indiana, que aliás foi a civilização que domesticou a cana de açúcar, e que revelou muitas tecnologias para a fabricação do açúcar, da rapadura, do melado, do caldo de cana, e de uma ampla e diversa doçaria. Destaque para os cardápios doces que são oferecidos nos templos em banquetes rituais para as divindades indianas.

Esse sentimento doce relaciona a pessoa ao seu deus, numa ação ungida pelo açúcar. E assim, os rituais nos quais há o oferecimento dos doces da preferência da divindade, como acontece com Ganesha, que adora coco verde e maduro, e os doces feitos à base de coco, açúcar mascavo ou rapadura; e outros ingredientes, mostra um exemplo de uma rica doçaria ritual.

Em destaque o estilo de doce chamado de “laddoo”, docinho arredondado que lembra muito os nossos docinhos de festa. O Deus Ganesha, tem uma preferência especial pelo “modak”, feito de coco e açúcar, tão semelhante ao nosso celebrado beijinho-de-coco.

Nestes oferecimentos rituais, e no consumo, de laddoo, há uma incorporação do sentimento de doçura para a pessoa, para o seu corpo, para as suas relações afetivas, religiosas e sociais, e que sejam doces para dialogar com o mundo.

Assim, no processo civilizatório da cana de açúcar, o doce ganha uma intimidade e um sentido mágico de amuleto e de proteção da pessoa. Comer um doce, ou trazer junto ao corpo o açúcar, é uma garantia de que tudo será doce, que tudo será realizado com doçura.

 

 

RAUL LODY

 

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